04
Jul 11

...

jaz viva e adormece
a menina de sua mãe

os caracóis soltos na almofada
os braços a bacia os pés partidos
o corpo pousado na cama articulada
as flores murchando na jarra improvisada

sentada numa cadeira a seu lado
a mãe descose as suas camisas de dormir
o corpo danificado
inchou de dor de nada

politraumatizada
jaz viva e anoitece
a menina de sua mãe

Bénédicte Houart
publicado por RAA às 14:16 | comentar | favorito
04
Jul 11

TERRA

Nha Chica, conte-me
aquela história
de meus irmãos
hoje perdidos
no mundo grande...

Nha Chica, eu sei:
anos de seca,
gentes morrendo,
casas sem telhas,
de porta em porta
olhos crescendo
barriga inchando,
um dia tombam
de olhos vidrados
por qualquer canto...

Lisboa, América,
Dakar ou Rio:
-- dentro de nós
surge esta ideia
partir! partir!

Resignados,
os que ficaram
ficam esperando
que as nuvens toldem
que a chuva caia
que o chão fecunde
cobrindo os montes
cobrindo as várzeas...

Ah, anos fartos!
Milho, feijão,
pilão cohindo,
fumo no ar,
riso nos lábios,
grog, cigarros,
batuques, bailes
e casamentos...

Olho estes campos,
olho estes mares,
e sinto a Vida
prendida à terra,
feita de sonhos
que um dia esvaem-se
-- mas surgem sempre...

António Nunes
publicado por RAA às 11:41 | comentar | favorito
03
Jul 11
03
Jul 11

MOMENTO

Tudo esqueci e tudo perdoei,
não me resta qualquer ressentimento,
dono apenas do que sei
que me escapa como o vento.

Nenhuma coisa é mais do que o momento
em que a tive e a deixei.

Torquato da Luz
publicado por RAA às 19:55 | comentar | favorito
02
Jul 11

Rua

autor: Alberto de Serpa (Porto, 1906-1992)
título: Rua
subtítulo: Poemas
editora: Editorial Inquérito
local: Lisboa
ano: 1945
págs.: 100
dimensões: 19x15x1,9 cm. (brochado)
capa: autor não identificado
impressão: Imprensa Libânio da Silva, Lisboa
publicado por RAA às 23:15 | comentar | favorito
02
Jul 11

...

Vem a mão do vento abrir o céu, abrir
o mar. Aves partem. Minhas mãos acendem
luar. Um trovão tremendo. Um estrondo na memória.
Explodem palavras. A canção do mundo. Estrelas
iluminam risos de crianças.

Carlos Matias
publicado por RAA às 15:14 | comentar | favorito
01
Jul 11

ELEGIA

Liberdade,
sem ti nada mais sei.

Compreendi o mundo
em ti, sútil
compêndio.

Amei muito antes
de me amares,
entre surtos e sulcos.

Amei
e só a morte
de perder-te
me faz viver
multiplicando
auroras, meses.

E sou tão doido
que o risco inútil
percorri
de me perder, perdendo-te,
perdido em mim.

Carlos Nejar 
publicado por RAA às 14:33 | comentar | favorito
01
Jul 11

SOLITUDE

A cadeira ainda espera
no seu canto.

Há dias que é só cair
sem sentido ou movimento.

Ella em prece
Barney no lamento.

Há dias que só
desmaio de tempo.

A cadeira desespera
noite canto.

Ella em prece
Barney no lamento.

Frederico Barbosa
publicado por RAA às 11:06 | comentar | favorito