23
Nov 11

AS TIME GOES BY

Como o tempo passa

enquanto ficamos sós...

Passamos nós pelo tempo

ou passa o tempo por nós?

Bebamos os dois à taça

o que, afinal, sou eu só

-- ambígua raiva, duelo,

dualidade num só.

 

Fernando Tavares Rodrigues

publicado por RAA às 17:36 | comentar | favorito
23
Nov 11

A MAGNÓLIA

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me à forma

o meu resplendor.

 

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria -- na metáfora --

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.

 

A magnólia

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

 

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

 

Luiza Neto Jorge

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22
Nov 11
22
Nov 11

SÃO JOÃO DA CRUZ

Viver organizando o diamante

(Intuindo sua face) e o escondendo.

Tratá-lo com ternura castigada.

Nem mesmo no deserto suspendê-lo.

 

Mas

Viver consumido da sua graça.

Obedecer a esse fogo frio

Que se resolve em ponto rarefeito.

Viver: do seu silêncio se aprendendo.

Não temer sua perda em noite obscura.

E do próprio diamante já esquecido,

Morrer, do seu esqueleto esvaziado:
Para vir a ser tudo, é preciso ser nada.

 

Murilo Mendes

publicado por RAA às 14:33 | comentar | favorito
21
Nov 11

UN DESTINO

Anónimo, discreto, provinciano,

escribí versos que no fueron leídos

a mujeres que nunca fueron mías

(sólo amé a quien pasaba

indiferente por mi lado);

soñé la vida que otros escribieron,

anduve por ciudades

en donde nunca estuve,

fui Hamlet y fui Ofelia y Lope y Marcel Proust,

remero en las galeras de Bizancio,

tañedor de viola en el jardín di Boboli,

conductor de tranvías en Manhattan,

Ariadna desdeñada por Teseo,

trapense en la mudez de un claustro...

Si tuve amigos, lo he olvidado;

sólo recuerdo tardes infinitas

monologando a solas o entre libros,

apagada ceniza que manchaba las manos.

Pienso en la muerte, en el mullido lecho

después del traqueteo de un viaje interminable,

y temo que alguien me la niegue. Puede morir

quien no ha vivido?

 

José Luis García Martín

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21
Nov 11

A BRISA E A CHUVA

Buscas consolo no sopro do vento?

Em sua aragem há perfume e almíscar

Que até ti vem, ataviado de aromas,

Fiel mensageiro da tua doce amada.

 

O ar prova os trajes das nuvens

E escolhe um manto negro.

Uma nuvem prenhe de chuva

Acena ao jardim, saúda-o

Vertendo lágrimas nas risonhas flores.

 

A Terra apressa a nuvem

Para que lhe acabe o manto.

E a nuvem com uma mão

Entretece fios de chuva

E com a outra vai-o enfeitando

Com um bordado a flores.

 

Ibn Sara

(Adalberto Alves)

publicado por RAA às 11:34 | comentar | favorito
20
Nov 11

...

São sombras que passam despidas

caminham sozinhas o laivo das fontes

 

não falam, não bebem, não abrem o céu

passam descalças o estreito caminho

 

muradas, sem nome desossam aos dias

amanham descalças as ervas dos rios

 

sufocam azuis, estaladas de ferida

 

são fodidas à noite como fábricas.

 

Alexandre Nave

publicado por RAA às 23:31 | comentar | favorito
20
Nov 11

POR MÃO PRÓPRIA

Não te afastes  não fujas  não desistas.

Há uma escrita que se extingue
E uma alegria que se esvai
Se te afastares  se fugires e desistires  de mim.

publicado por RAA às 03:08 | comentar | favorito
19
Nov 11
19
Nov 11

NOCTURNO

É tão

estranha a paz

que não ter paz me traz (ouvir outrora

os Nocturnos a uma hora

como esta tão longe de tudo vendo embora

as luzes que se acendem nas

janelas em frente

bastaria

para que a nuvem da melancolia

sobre mim derramasse

a água sufocada)

como se, para sossegar, a vida

precisasse

de se sentir perdida.

 

Gastão Cruz

publicado por RAA às 23:53 | comentar | favorito
18
Nov 11

RUBAYAT

 

 

autor: Omar Khayyam

título: Rubayyat

subtítulo: Odes ao Vinho

tradutor: Fernando Castro

prefácio: E. M. de Melo e Castro

colecção: «Clássicos de Bolso» #62

edição: 3.ª

editora: Editorial Estampa

local: Lisboa

ano: 1999

págs.: 69

dimensões: 18x11x0,5 cm. (brochado)

capa: José Ribeiro sobre ilustração de René Bull

impressão: Rolo & Filhos, Mafra

publicado por RAA às 18:09 | comentar | favorito
18
Nov 11

...

     Se, depois de Abril de 74, eu imediatamente me dissera: "eis-me livre da praça pública, do político, na poesia", agora, hoje, não me é possivel olhar para os mortos que flutuam no lago de Kiwu, sem desejar poetar sobre eles.

     Não posso ver, hoje, a fome crescente e a chacina entre nações sem comoção. E a emoção pelos seres, pelos outros, pela natureza, pelo Cosmos, gera o poema.

 

Fiama Hasse Pais Brandão

publicado por RAA às 14:42 | comentar | favorito