14
Nov 11
14
Nov 11

BERNARDO SOARES

Nenhuma fotografia fará subir a chama

da paisagem para lá da janela do terceiro

andar deste prédio. O real é uma abstracção

inútil, uma eternidade a que tivessem

 

cortando a sua face de sonho, um coração

onde nada pesa que não seja o peso

leve dos sentidos. A vida toda é este mover

das coisas mais próximas, os ombros

 

a bússola de viagem o desenho a tinta-da-china

de pequenos barcos coloridos

algumas vozes longínquas que logo fazem

viver as suas formas substantivas: pobre

 

de quem vê o que seus olhos vêem. Às vezes

é como se tudo tivesse uma alma um

destino superior às vogais do seu nome

um espaço onde a eternidade vem para morrer.

 

José Carlos Barros

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11
Nov 11
11
Nov 11

NOITE QUENTE

Naquela noite quente nada estremecia

E nada se agitava na rede do luar,

Naquela noite cheia de folias, havia

Um invulgar aroma retido pelo ar.

 

Folhagem de arvoredo doce ali dormia,

Malha de fios dourados fazem tropeçar,

Folha verde na sombra não se distinguia

E a relva do jardim varal para amar.

 

Festa de bacanais, prazer e regozijo,

Ostentosa riqueza, orgia até nascente,

Perturbador anseio na foz de amor ardente

 

Correndo palpitante em vasto esconderijo

Para gozar no tempo a vida do amor,

Para viver a vida, sem pensar na dor.

 

Maria Campos

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10
Nov 11

...

Lá vem nhô Cacai da ourela do mar

Acenando a sua desilusão

De todos os continentes!

Ele traz o peito afogado em maresias

E os olhos cansados da distância das horas...

 

Lá vem nhô Cacai

Com a boca amarga de sal

A boiar o seu corpo morto

Na calmaria da tarde!

 

Nhô Cacai vem alimentar os seus filhos

Com histórias de sereias...

Com histórias das farturas das Américas...

 

Os seus filhos acreditam nas Américas

E sabem dormir com fome...

 

Onésimo Silveira

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10
Nov 11

MODA

Eu queria te ver,

coxas de fora,

(como de fora vejo teus pelos do peito

pela camisa de seda),

a andares na rua,

entre assobios e apalpadelas,

o olhar disperso

como quem nada percebe,

e mostrando ao sentares,

subindo-te a roupa,

a cueca combinando com a gravata.

 

Leila Miccolis

publicado por RAA às 11:21 | comentar | favorito
09
Nov 11
09
Nov 11

MAGISTÉRIO

Oiço em Haydn
                  nitidamente
o seu discípulo
                  Beethoven.
publicado por RAA às 11:38 | comentar | favorito
08
Nov 11
08
Nov 11

TENDERLY

Claro

som

sem

brumas

redescobre

Debussy.

 

Incerto azul

de bardo

índigo

Mallarmé

desperto

ecoa.

 

O fauno é outro

e se levanta

em clarinete

sobre a lagoa

mar Ellington piano.

 

A orquestra é uma cobra

ninfa seduzida

à sua volta

o clarinete

olhos abertos

evoca vento

acorda e nos devora.

 

Frederico Barbosa

publicado por RAA às 14:58 | comentar | favorito
07
Nov 11
07
Nov 11

RENÚNCIA

Deixei enfim de pedir

Eternidade ao amor

 

Aceito o ritmo sem ritmo

Que há por dentro desse ritmo

Que não se vê não se ouve

Mas eu sinto deslumbrado

Quando os teus olhos acendem

Os corredores da noite

 

Alberto de Lacerda

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06
Nov 11
06
Nov 11

ISSO

(e. e. cummings)

 

"Isso que o realejo toca",

não a música, apenas

isso, a intensidade abstracta

 

de uma linguagem condenada

pela amplitude do sentido,

mas apta para garantir

 

um pouco de paz e suster

as vozes que fluem no vazio,

isso que guardas,

 

desde que tens rosto,

com sorte poderás ler

ou arrancar de ti.

 

José Ricardo Nunes

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03
Nov 11
03
Nov 11

AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranquila,

-- Perdida voz que entre as mais se exila,

-- Festões de som dissimulando a hora

 

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila

E os lábios, branca, do carmim desflora...

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

 

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,

Cauta, detém... Só modulada trila

A flauta flébil... Quem há-de remi-la?

Quem sabe a dor que sem razão deplora?

 

Só, incessante, um som de flauta chora...

 

Camilo Pessanha

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02
Nov 11
02
Nov 11

E

E de elegante

E de elaborado
 
E de espasmódico, de efluente, de ejaculatório, de electrizante e de electromagneto, de entusiamante e de espectaculoso
E de eia!
 
E de edificante, de egrégio, de emérito, de engrandecido
 
E de egipciano e de eleusínico
E do espanto
 
E de enobrecido, de efes-e-erres, de elanguescente, de envolvente e estiloso
E de escol
E de esmerilhado e também de elemental, de escandido e de escorrente
 
E de etnológico, de ebanítico, de eldorado
E de escarlate, de ele e de ella
E de ecuménico
E de espalhado
E de estuário
 
E de edénico, de espiritual e de espiritoso, de enigmático, de evanescente
 
E de eficaz, de estremecido e de excelente
 
E de «Duke»
E de Ellington
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