02
Dez 11

PARA O MAR 3

Águas marinhas

sobem acima

do nível do mar.

 

Sambaquis submersos

na memória

das marés.

 

Barco sem saída

e eu aqui

nesse convés.

 

Antonio Risério

publicado por RAA às 14:51 | comentar | favorito

TRIESTE

Nesse verão nenhum de nós buscava terra firme

parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas

Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz

austríaca sobre as colinas

ao fumo lento no anfiteatro do golfo

à ordem aleatória do tempo?

 

Talvez nos caiba viver por cidades estranhas

em casas que esconderão sempre o seu medo

e a sua glória

só diante dos céus

sem a certeza culminante

 

Vemos a tarde perder-se na direcção do molhe

o mundo é aquilo que nos separa do mundo

publicado por RAA às 14:22 | comentar | favorito
02
Dez 11

CAIXA DE AMÊNDOAS

Ireis, amêndoas, saber

Que incomparável ventura

Às vezes há em sofrer.

 

Na boca vermelha e pura

Onde vos ides perder,

Se vos atrai certa alvura,

Muito deveis padecer.

 

Desta espantosa tortura

Só vos podeis defender

Duma maneira segura,

Dando-lhe o gozo e a doçura

De vos sentir derreter.

 

João Saraiva

publicado por RAA às 12:32 | comentar | favorito
01
Dez 11
01
Dez 11

...

bates à porta

mil vezes bates a essa porta com a voz em sangue

enquanto te encandeia a luz feroz da inocência

a iluminar-te os dedos

contra a grande incógnita da porta

 

o que balbucias não é ainda cântico

mas a nua lâmina onde aguardas

as primeiras estrofes ainda sem palavras

 

o balanço dos gonzos

o entreabrir dos lábios

o negro puro

as pupilas enormes

o remoínho ubíquo na pele e na escuridão devassada

a interrogação que lateja

 

quando a porta se abre

é que já pouco importa

a eternidade ficou toda e para sempre naquela pulsação

desordenada

 

 

Carlos Nogueira Fino

publicado por RAA às 23:21 | comentar | favorito