19
Jan 12

SOL DE INVERNO

Não sei o que há no ar

Que me arreceio...

 

Esta luz, este sol, esta primavera extemporânea...

Esta espécie de ameaça disfarçada ou escondida...

Esta pressentir de algo prestes a acontecer...

 

Não sei

Não sei o que há no ar

Que me arreceia...

 

José Borrego

publicado por RAA às 16:05 | comentar | favorito
19
Jan 12

FONTE

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta

agora entre águas e silêncios.

Nada te acorda -- nem as folhas dos ulmos,

nem os rios, nem os girassóis,

nem a paisagem arrebatada.

-- Espero do tempo novo todos os milagres,

menos tu.

 

Corres somente no meu sangue memoriado

e sobes, carne das palavras outra vez

imperecíveis e virgens.

-- Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,

outras mãos mais puras

e mais sagazes,

e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude

inteligente.

 

-- Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.

Mas tu estarás mais branca com a boca selada

pelas pedras lisas.

E sei que terei o amor e o pão e a água

e o sangue e as palavras e os frutos.

Mas tu , ó rosa fria,

ó odre das vinhas antigas e limpas?

 

Do tempo novo espero

o sinal ardente e incorrupto,

mas levo os dedos ao teu nome prolongado,

ó cerrada mãe, levo

os dedos vazios --

e a tua morte cresce por eles totalmente.

 

Herberto Helder

publicado por RAA às 11:36 | comentar | favorito