06
Jan 12
06
Jan 12

RENÚNCIA

Chora de manso e no íntimo... Procura

curtir em queixa o mal que te crucia:

o mundo é sem piedade e até riria

da tua inconsolável amargura.

 

Só a dor enobrece e é grande e é pura.

Aprende a amá-la que a amarás um dia.

Então ela será tua alegria

e será, ela só, tua ventura...

 

A vida é vã como a sombra que passa...

Sofre sereno e d'alma sobranceira,

sem um grito sequer, tua desgraça.

 

Encerra em ti tua tristeza inteira,

e pede humildemente a Deus que a faça

tua doce e constante companheira...

 

Manuel Bandeira

publicado por RAA às 15:44 | comentar | favorito
05
Jan 12

...

Oh, não, me diz, repelindo

a própria ideia de amar.

Mas pouco a pouco é o desejo

que acaba por conquistar:

e sem medo vai fazendo

os gestos com que brincar,

até que as ancas me entrega,

abertas de par em par.

Oh como se ama de amor

esse amor que aprende a amar!

 

Barthrari

 

(Jorge de Sena)

publicado por RAA às 17:00 | comentar | favorito

TUDO SE GASTA

Nós vestimos de sonho

Embelezamos com flores

          Tanta sucata!

 

Mas a ilusão

Também se gasta

          Sensação de ouro e prata

          De repente

                    Lata

 

Tomás Jorge

publicado por RAA às 15:52 | comentar | favorito

QUANDO SE EXCITAM

Procura guardá-las, poeta,

por muito que sejam poucas as coisas que podem ser detidas.

As visões do teu erotismo.

Mete-as, meio escondidas, nas tuas frases.

Procura segurá-las, poeta,

quando se excitam na tua mente,

à noite ou no esplendor do meio-dia.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

publicado por RAA às 12:50 | comentar | favorito
05
Jan 12

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida das minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.

 

Carlos Drummond de Andrade

publicado por RAA às 11:24 | comentar | favorito
04
Jan 12

A VIDA SUSPENSA

Por duas horas puseram a vida entre parênteses.

publicado por RAA às 19:06 | comentar | favorito
04
Jan 12

O CAUTELEIRO

O cauteleiro é velho. Envelheceu

A vender ilusões pelas vielas.

Nos bairros pobres todos o conhecem,

A todos vendeu sonhos em cautelas.

 

Pequenos, grandes sonhos... À medida

Das várias ambições.

Grandes sonhos de viagem, de aventura,

De glória, de esplendor.

Pequenos sonhos de pequeno amor,

De modesta ventura.

 

O cauteleiro é velho, mas que importa?

Continua a apregoar cautelas brancas

E a vender ilusões de porta em porta.

 

Fernanda de Castro

publicado por RAA às 15:15 | comentar | favorito
03
Jan 12
03
Jan 12

...

Lá dos umbrais de um sonho me chamaram...

Era aquela voz boa, voz querida.

 

-- Diz-me: virás comigo visitar a alma?...

No coração me entrava uma carícia.

-- Contigo, sempre... E avancei no sonho

por uma longa e recta galeria,

sentindo o só roçar da veste pura

e o suave palpitar da mão amiga.

 

Antonio Machado

 

(Jorge de Sena)

publicado por RAA às 14:29 | comentar | favorito
02
Jan 12
02
Jan 12

LES BELLES AMOURETTES

Où êtes-vous allées, mes belles amourettes?

Changerez-vous de lieu tous les jours?

 

À qui dirai-je mon tourment,

Mon tourment et ma peine?

Rien ne répond à ma voix,

Les arbres sont secrets, muets et sourds.

Où êtes-vous allées, mes belles amourettes?

Changerez-vous de lieu tous les jours?

 

Ah! puisque le ciel veut ainsi

Que mon mal je regrette,

Je m'en irai dedans les bois

Conter mes amoureux discours,

Où êtes-vous allées, mes belles amourettes?

Changerez-vous de lieu tous les jours?

 

Francisco I de França

 

 

publicado por RAA às 15:57 | comentar | favorito
01
Jan 12
01
Jan 12

PESO DE OUTONO

Eu vi o Outono desprender suas folhas,

cair no regaço de mulheres muito loucas.

Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo

na cidade de Heidelberg pronta para a neve

saboreavam tepidamente a sua ignorância.

 

Eu vi as amantes ensandecerem

com esse peso de Outono. Perderem as forças

com o Outono masculino e sangrento.

Os gritos a meio da noite

das amantes a meio da loucura voavam

como facas para o meu peito.

 

Alguns poetas li-os melhor no Outono,

certos amores só poderia tê-los,

como tive, nos dias doce da vindima.

 

Fernando Assis Pacheco 

publicado por RAA às 18:06 | comentar | favorito