A ARANHA

Não te afastes de mim, temendo a minha sanha

e o meu veneno... Escuta a minha triste história:

Aracne foi meu nome e na trama ilusória

das rendas florescia a minha graça estranha.

 

Um dia desafiei Minerva. De tamanha

ousadia hoje expio a incomparável glória...

Venci a deusa. Então, ciumenta da vitória,

ela não ma perdoou: vingou-se e fez-me aranha!

 

Eu que era branca e linda, eis-me medonha e escura.

Inspiro horror... Ó tu que espias a urdidura

da minha teia, atenta ao que o meu palpo fia:

 

Pensa que fui mulher e tive dedos ágeis,

sob os quais incessante e vária a fantasia

criava a pala sutil para os teus ombros frágeis.

 

Manuel Bandeira

publicado por RAA às 11:41 | comentar | favorito