14
Fev 12

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o teu sono anoiteceu mais que a noite

e hei-de escrever-te sempre sem que nunca

te escreva sei as palavras que fechaste

nos olhos mas não sei as letras de as dizer

ensina-me de novo se ensinares-me for

ir ter contigo ao teu sorriso ensina-me

a nascer para onde dormes que me perco

tantas vezes numa noite demasiado pequena

para o teu sono num silêncio demasiado fundo

dormes e tento levantar a pedra que te

cobre maior que a noite o peso da pedra que

te cobre e tento encontrar-te mais uma vez

nas palavras que te dizem só para mim

o teu sono anoiteceu mais que as mortes

que posso suportar e hei-de escrever-te

sempre e mais uma vez sozinho nesta noite

 

José Luís Peixoto

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14
Fev 12

À ESPERA DOS BÁRBAROS

-- Que esperamos na ágora congregados?

 

          Os bárbaros hão-de chegar hoje.

 

 

--Porquê tanta inactividade no Senado?

Porque estão lá os Senadores e não legislam?

 

          Porque os bárbaros chegarão hoje.

          Que leis irão fazer já os Senadores?

          Os bárbaros quando vierem legislarão.

 

 

-- Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,

e está sentado à maior porta da cidade

no seu trono, solene, de coroa?

 

          Porque os bárbaros chegarão hoje.

          E o imperador espera para receber

          o seu chefe. Até preparou

          para lhe dar um pergaminho. Aí

          escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

 

 

-- Porque os nossos dois cônsules e os pretores

saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas;

porque levaram pulseiras com tantas ametistas,

e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;

porque terão pegado hoje em báculos preciosos

com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

 

          Porque os bárbaros chegarão hoje;

          e tais coisas deslumbram os bárbaros.

 

 

-- E porque não vêm os valiosos oradores como sempre

para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

 

          Porque os bárbaros chegarão hoje;

          e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

 

-- Porque terá começado de repente este desassossego

e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)

Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,

e todos regressam às suas casas muito pensativos?

 

          Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.

          E chegaram alguns das fronteiras,

          e disseram que já não há bárbaros.

 

 

 

 

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.

Essa gente era alguma solução.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)  

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