22
Mar 12
22
Mar 12

QUASE

agagueiraquasepalavra

quaseaborta

apalavraquasesilêncio

quasetransborda

osilêncioquaseeco

 

Arnaldo Antunes

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21
Mar 12
21
Mar 12

PLUS ULTRA

Ao Dr. José Miranda

 

Pelas solitárias quebradas dos montes

Erram indistintas vozes naturais.

Balidos de corças, murmúrios de fontes,

Perdidas cantigas d'amor dos zagais.

 

E mais para além dos vastos horizontes,

E inda p'ra além doutros horizontes mais,

Há sonhos desfeitos, pensativas frontes,

Loucos corações em pecados mortais.

 

Para além de nós e do que em nós existe

Há manhãs de sol, noites de luar triste,

Destinos perdidos em convulsões e ânsias.

 

Num só horizonte a vida não se cinge,

Pois outros mais há que a vida não atinge,

E muito p'ra além de todas as Distâncias.

 

Alexandre de Córdova

publicado por RAA às 12:51 | comentar | favorito
20
Mar 12

OUTRA CANTIGA

O querer e não querer

são bocas da mesma fome.

Mas há pão que é de comer

e outro só o nojo o come.

Cravos de chaga sangrando

não alimentam ninguém.

Até onde e até quando

só o que é mal será bem?

Sofre, coração desfeito.

Coração desfeito, espera.

Tudo o que existe perfeito

em imperfeições se gera.

 

Armindo Rodrigues

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20
Mar 12

"É pela tarde, quando a luz esmorece"

É pela tarde, quando a luz esmorece

E as ruas lembram singulares colmeias,

Que a alegria dos outros me entristece

E aguço o faro para as dores alheias.

 

Um que, impaciente, para o lar regresse,

As viaturas que cruzam cheias

Dos que fazem da vida uma quermesse,

São para mim, faminto, odor de ceias.

 

Sentimento cruel de quem se afasta,

Por orgulho repele, e se desgasta

No esforço de fugir à multidão.

 

Mas castigo de quem, por imprudente,

Já não pode deter-se na vertente

Que vai da liberdade à solidão.

 

Reinaldo Ferreira

publicado por RAA às 15:57 | comentar | favorito
19
Mar 12
19
Mar 12

"Eu torno-me cada vez mais dócil"

Eu torno-me cada vez mais dócil,

e tu sempre misterioso e novo,

mas teu amor, meu severo amigo,

é uma prova de ferro e fogo.

 

Proíbes-me de cantar, sorrir,

e há muito tempo de rezar,

desde que não me aparte de ti,

todo o resto me é igual!

 

Assim, alheia à terra e ao céu,

já não canto, apenas vivo.

Minha alma livre arrancaste

do inferno e do paraíso.

 

Anna Akhmátova

 

(Nina Guerra e Filipe Guerra)

publicado por RAA às 00:18 | comentar | favorito
17
Mar 12
17
Mar 12

Novo Cancioneiro

título: Novo Cancioneiro
prefácio, organização e notas: Alexandre Pinheiro Torres
edição integral: Terra, de Fernando Namora; Poemas, de Mário Dionísio; Sol de Agosto, de João José Cochofel; Aviso à Navegação, de Joaquim Namorado; Os Poemas de Álvaro Feijó; Planície, de Manuel da Fonseca; Turismo, de Carlos de Oliveira; Passagem de Nível, de Sidónio Muralha; Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro; Voz que Escuta, de Políbio Gomes dos Santos.
edição: Editorial caminho
local: Lisboa
ano: 1989 
págs.: 413
dimensões: 24x17,5x2,2 cm. (brochado)
impressão: Gráfica da Venda Seca
capa: Mário Caeiro sobre ilustração de Carlos Marques
tiragem: 3000
publicado por RAA às 17:11 | comentar | favorito
16
Mar 12
16
Mar 12

ORQUÍDEAS

Foi um erro substituir

por orquídeas

as flores artificiais

no centro da mesa.

Exigem luz, cuidados,

uma humidade temperada.

Bem as conheço:

flores venenosas

donas de uma beleza gratuita.

Às outras bastava passar

o pano do pó às vezes,

nem olhava para elas,

para as suas folhas baças,

para os seus ramos secos de arame;

estas ensinam-me, com esplendor, a tua morte,

a ferida com que o mundo vai cabar.

 

Luís Filipe Parrado

publicado por RAA às 14:56 | comentar | favorito
15
Mar 12
15
Mar 12

Antologia da Novíssima Poesia Brasileira

título: Antologia da Novíssima Poesia Brasileira

antologiadores: Gramiro de Matos e Manuel de Seabra

autores: Adauto, Francisco Alvim, James Anhanguera, Eudoro Augusto, Carlos Ávila, Ronaldo Azeredo, Alberto Luiz Baraúna, Antônio Carlos de Brito, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, José Carlos Capinan, Ana Cristina César, Chacal, Mário Chamie, Charles, Moacy Cirne, Ronald Claver, José Falcon, Armando Freitas Filho, Leomar Fróes, Mauro Gama, Pedro Garcia, José Lino Grünewald, Júlio Castañon Guimarães, Lara de Lemos, Florisvaldo de Matos, Gramiro de Matos, Leila Miccolis, Carlos Nejar, Afonso Henriques Neto, Torquato Neto, Libério Neves, Sebastião Nunes, Mário de Oliveira, Décio Pignatari, Roberto Piva, Fernando Py, Ricardo G. Ramos, Affonso Romano de Sant'Anna, Wally Sailormoon, Silviano Santiago, Olga Savary, Roberto Schwarz, Abel Silva, Adão Ventura, Bernardo de Vilhena, Ronaldo Werneck e Jayro José Xavier.  

colecção: «Horizonte da Poesia» #14

editora: Livros Horizonte

local: Lisboa

ano: s.d.

págs.: 194

dimensões: 21x14x1,5 cm. (brochado)

impressão: Tipografia Nunes, Porto.

publicado por RAA às 12:50 | comentar | favorito
14
Mar 12
14
Mar 12

CAMINO DE IMPERFECCIÓN

Joven,

yo era un vanidoso inaguantable.

«Esto va mal», me dijo un día el espejo.

«Tienes que corregirte».

Al cabo de una semanas era menos vanidoso.

Unos meses después ya no era vanidoso.

Al año seguiente era un hombre modesto.

Muy modesto.

Modestísimo.

Uno de los hombres más modestos que he conocido.

Más modesto que qualquiera de ustedes.

O sea

un vanidoso inaguantable

viejo.

 

Miguel d'Ors

publicado por RAA às 15:33 | comentar | favorito
13
Mar 12
13
Mar 12

VERSOS À GRÉCIA

Mata o amor da Pátria o amor da Humanidade,

E ao pé da nossa Pátria a Humanidade o que é?!

Só em face da morte é que existe a igualdade;

Mesmo entre irmãos, na vida, há distância até.

 

Espírito que o mundo em teu braço agarras,

São debaixo do céu os homens tão dif'rentes!

P'ra defender os mais, sentimo-nos com garras,

Mas, p'ra nos defender, temos até os dentes.

 

Aos gritos dos clarins da velha Grécia em p'rigo,

O grande coração desse povo aviltado

Se em todos encontrou um coração amigo,

Fez do homem mais fraco um heróico soldado.

 

A nossa linda terra é Deus que no-la guarda!

Mas para libertar, convosco,o vosso solo,

Só não há-de saber pegar numa espingarda

Quem não souber pegar numa criança ao colo.

 

Há mil bocas de fogo em cada peito: é abri-lo!

Nas bocas dos canhões há corações a arder!

Fala-se em pátria? Basta! É o seu torrão aquilo

Que eles defendem? Basta! Eles hão-de vencer.

 

Lutar-se braço a braço e fibra contra fibra,

É o que a nossa razão e consciência ensina;

Não gosto do punhal, mas quando quem o vibra

É fraco e aviltado, é uma arma divina!

 

Porque sou, como vós, dum país ameaçado,

Eu compreendo, agora, o vosso ódio bem;

Amanhã entrarão no meu país amado

E tentarão matar os meus irmãos também.

 

Que importa? Ao expirar coberto de mil f'ridas,

Eu direi para mim, mais viva a fé que tinha,

Que todas as nações poderão ser vencidas,

Há uma só que nunca o pode ser: é a minha!

 

Pois pensai vós também que, seja como for,

Não há nada e ninguém que aniquilar-vos possa,

E a bandeira que ergueis, de que nem sei a cor,

Há-de tomar no ar as lindas cor's da nossa.

 

Sofrereis? Certamente! E que importa sofrer?

Só a dor purifica e torna a vida bela!

Quem me dera uma hora igual, p'ra combater!

A minha Pátria assim, para morrer por ela!

 

Fausto Guedes Teixeira

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