10
Abr 12

(BOXE)

No mini-ginásio do Sport Lisboa e Amoreiras

um rapazola gritou: poesia! poesia

é o cangalho das feiras, onde sempre

chega tarde a melodia!, a camisola

lançada pró tapete com sabor a sujo.

E no entanto, o braço era perfeito;

 

o ombro um tanto oblíquo merecia

o olho pardo do freguês vizinho.

A laranja, no sumo, é sábia pena

para o desejo ou fuga que meneia

cegos copos de vidro facetado

e a bandeira do clube de permeio.

 

A rima, sim, é esse vão ouvido

com que se atiram socos à parede;

um deus, seguramente, mas aflito

de não saber coas mãos, depois,

quando era fim de noite e já ninguém sabia

o que era corpo, sangue ou poesia.

 

António Franco Alexandre

publicado por RAA às 14:58 | comentar | favorito
10
Abr 12

A CAMÕES

Quando n'alma pesar de tua raça

a névoa da apagada e vil tristeza,

busque ela sempre a glória que não passa,

em teu poema de heroísmo e de beleza.

 

Gênio purificado na desgraça,

tu resumiste em ti toda a grandeza:

poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça

o amor da grande pátria portuguesa.

 

E enquanto o fero canto ecoar na mente

da estirpe que em perigos sublimados

plantou a cruz em cada continente,

 

não morrerá sem poetas nem soldados

a língua que cantaste rudemente

as armas e os barões assinalados.

 

Manuel Bandeira

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