16
Jul 12
16
Jul 12

MARCHA TRIUNFAL

Surge a locomotiva

Longa, omnipotente.

Quantas rodas em rodopio!

Hálito quente e frio,

Metais em carne viva...

 

Depressa

Começa

A fugir, fustigante, felina.

Duas nódoas de fogo à frente,

Tudo em jogo:

Ferro, aço, carvão, destroços e resina

 

Mas enquanto isto digo,

Não consigo

Traduzir o relâmpago, a vertigem

De tal velocidade!

Mas tal e qual suponho,

Um instante de sonho

Fugitivo...

 

Forte, febril, fervente, este phallus fura o espaço.

 

Gil Vaz

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13
Jul 12
13
Jul 12

MARIA MADALENA

I

 

VIVENDO

 

Túnica branca a roçagar, silente,

as formas gráceis do corpo leve,

desnudo o colo dum alvor de neve,

cristal o olhar tão luminoso e ardente;

 

Figura esbelta, fugidia e breve,

prendendo ao corpo dela o olhar da gente,

cedendo Amor, pedindo Amor crescente,

desnudo o colo dum alvor de neve.

 

Vivendo a lei da Vida, como a Terra

que ama a semente e no seu ventre a encerra,

a alimenta, a agasalha e a reproduz,

 

Lábioos sorrindo sem esgares de pena,

Deusa de Amor -- Maria Madalena

passa e, empós dela, só há rastros de luz.

 

Álvaro Feijó

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12
Jul 12
12
Jul 12

É ASSIM, A MÚSICA

A música é assim: pergunta,

insiste na demorada interrogação

-- sobre o amor?, o mundo?, a vida?

Não sabemos, e nunca

nunca o saberemos.

Como se nada dissesse vai

afinal dizendo tudo.

Assim: fluindo, ardendo até ser

fulguração -- por fim

o branco silêncio do deserto.

Antes porém, como sílaba trémula,

volta a romper, ferir,

acariciar a mais longínqua das estrelas.

 

Beja, 18.7.97

 

Eugénio de Andrade

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10
Jul 12
10
Jul 12

NAVEGAÇÃO À VELA

Segue:

tens nas bússolas todos os nortes

e nos sextantes

as alturas de todas as estrelas,

que foram feitas só para te guiar.

 

Segue,

nos teus mapas

estão marcadas todas as loxodromias

e nos portos

os cais mansos

estendem-te os braços maternais.

 

Vai

pelo caminho seguro

na certeza de aportar.

Vai

nos vapores das companhias

com baleeiras nos decks

e S.O.S. nas telegrafias

e cintos de salvação.

 

Vai

pelo boulevard iluminado,

pelos caminhos traçados

pelas velhas caravanas

do tempos dos Ramsés...

 

Mas deixa

que eu arrisque a minha vida

nas encruzilhadas escuras

dos bairros criminais,

e vá só

pelos desertos

com simouns e miragens

fora das rotas fatais;

deixa

que eu viva a aventura

sem bússolas e sem astros

-- como nos contos da velha pirataria

que a mim próprio eu contava

nos meus tempos de menino

e em que eu mesmo era o herói

e herói sempre invencível --

que eu amo só

as tempestades bravas

que partem os lemes e os mastros

e rasgam as velas

(asas agonizando nos topos

entre tufões)

e as ondas

grandes como montanhas

que nos arrastam das estrelas aos abismos;

e as marés irresistíveis

que me encalham nos baixios...

Que eu amo só

a vida arriscada

numa espelunca esquecida

duma rua de Xangai

num duelo de facada.

 

Vai

pelos caminhos seguros

nos vapores das companhias

com certeza de aportar...

deixa

que eu continue sendo

o último tripulante

da fragata naufragada

neste mar dos tubarões.

 

Joaquim Namorado

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09
Jul 12

ESPERANÇA

Só a leve esperança em toda a vida

disfarça a pena de viver, mais nada;

nem é mais a existência, resumida,

que uma grande esperança malograda.

 

O eterno sonho da alma desterrada,

sonho que a traz ansiosa e embevecida,

é uma hora feliz, sempre adiada

e que não chega nunca em toda a vida.

 

Essa felicidade que supomos,

árvore milagrosa, que sonhamos

toda arreada de dourados pomos,

 

existe, sim; mas nós não na alcançamos

porque está sempre apenas onde a pomos

e nunca a pomos onde nós estamos.

 

Vicente de Carvalho

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09
Jul 12

DE TÃO PERTO

Chega a doer olhar-te de tão perto

primeiro só tocar o infinito

da distância -- depois em toda a parte

estar por dentro dela em ti -- aí

 

onde a dor de te olhar se fará dia

ou o tempo agora ama e deita carne

de regresso ao imenso sol vazio

que em tudo o que acontece permanece

 

mortal nascente branca -- e água e pura

transparância da ausência mais extrema

por onde morre e nasce enquanto pulsa

em cada veia todo o universo

 

Chega a doer olhar-te de tão perto

ousar a eternidade a tempo aberto

 

Miguel Serras Pereira

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08
Jul 12
08
Jul 12

"Per Europa godere in bue cangiossi"

Per Europa godere in bue cangiossi

Giove, che di chiavarla avea desio,

E la sua deità posta in obblio,

In più bestiali forme trasformossi.

 

Marte ancor cui perdè li suoi ripossi

Che potea ben goder perchè era Dio

E di tanto chiavar pagonne il fio,

Mentre qual topo in rete pur restossi.

 

All'incontro costui, che qui mirate,

Che pur senza pericolo potria

Chiavar, non cura potta nè cullate.

 

Questa per certo è pur coglioneria

Tra le maggiori e più solennizzate

E che commessa mai al mondo sia.

 

Povera mercanzia!

Non lo sai tu, coglion, ch'è un gran marmotta

Colui che di sua man fa culo e potta.

 

Pietro Aretino

 

 

Para gozar Europa, em boi mudou-se

Jove, pelo desejo compelido

E em mais formas bestiais, posta no olvido

A sua divindade, transformou-se.

 

Marte perdeu também aquele doce

Repouso a um Deus somente consentido,

Por ser muito trepar foi bem punido,

Qual rato que na rede embaraçou-se.

 

Este que ora mirais, em contradita,

Podendo, sem perigo, a vida inteira

Trepar, a cu nem cona se habilita.

 

Pois isso, que é sem dúvida uma asneira

Inaudita, solene, verdadeira,

Nunca mais neste mundo se repita.

 

Insossa brincadeira!

Pois não sabes, meu puto, que é malsão

Fazer boceta e cu da própria mão?

 

(tradução: José Paulo Paes)

publicado por RAA às 04:29 | comentar | favorito
05
Jul 12

SOL DE AGOSTO

I

 

Que posso eu querer do Céu,

se na terra há um sol de Agosto

e a vida canta da alva ao sol-posto?

 

Que posso eu querer de abstracto,

se teu sangue brotou da minha força

e a dor que te rasgou a ergui em facho?

 

Deixem dizer!

A seiva tem seu travo, é certo.

Pois bem: mais uma razão para eu beber.

 

João José Cochofel

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05
Jul 12

"-- Aonde vais pela alta noite dentro?"

-- Aonde vais pela alta noite dentro?

-- Encontrar-me com quem me é vida e morte.

-- E não tens medo de sair tão só?

-- Sòzinha? Eu? Se vai comigo o amor!

 

Amaru

(Jorge de Sena)

publicado por RAA às 14:33 | comentar | favorito
04
Jul 12
04
Jul 12

CASA DESERTA

Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.

O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
e a chuva caindo
e a casa deserta...

Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
ouvindo eternamente o vento soprando
e a chuva caindo, na noite, caindo...

Há uma cancela de madeira que ginga nos gonzos.
E um velho cão de guarda que ladra sem motivo.
Parece que é gente que vem a entrar.

E é só o vento soprando, soprando,
e a chuva caindo...

Mudaram muita vez as folhas da floresta.
E os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.

Ah nada pior que a casa deserta,
cheia dum sonho imenso que ficou na cabeça.
A casa deserta na noite deserta.

E o vento soprando
e a chuva caindo
e a casa deserta...

 

Mário Dionísio

publicado por RAA às 15:59 | comentar | favorito