12
Fev 13
12
Fev 13

"Pensar em Deus é desobedecer a Deus,"

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,

Porque Deus quis que o não conhecêssemos,

Por isso se nos não mostrou...

 

Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Belos como as árvores e os regatos,

E dar-nos-á verdor na sua Primavera,

E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

 

Fernando Pessoa 

Poemas de Alberto Caeiro

edição de António Quadros

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11
Fev 13
11
Fev 13

LE CANCRE / O CÁBULA

Il dit non avec la tête

Mais il dit oui avec le coeur

il dit oui à ce qu'il aime

il dit non au professeur

il est debout

on le questionne

et tous les problèmes sont posés

Soudain le fou rir le prend

et il efface tout

les chiffres el les morts

les dates et les noms

les phrases et les pièges

et malgré les menaces du maître

sous les huées des enfants prodiges

avec des craies de toutes les couleurs

sur le tableau noir du malheur

il dessine le visage du bonheur

 

Jacques Prévert


O CÁBULA


Diz que não com a cabeça

mas diz que sim com o coração

diz que sim àquilo que ama

diz que não ao professor

está de pé

fazem-lhe perguntas

e todos os problemas ficam postos

De repente desata a rir perdidamente

e apaga tudo

os números e as palavras

as datas e os nomes

as frases e as armadilhas

e apesar das ameaças do s'tor

sob os apupos dos meninos prodígios

em paus de giz de todas as cores

no quadro preto de má morte

desenha o rosto da sorte


(Pedro Tamen)

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08
Fev 13
08
Fev 13

DESFILE DO POVO ALEMÃO

Decorridos cinco anos nos disseram

que aquele que a si próprio se intitula

enviado de Deus já aprontou

sua guerra, os armamentos;

da forja já saíram os seus tanques,

canhões e cruzadores, e são tantos

os aviões poisados em suas pistas,

que a um gesto seu o céu se toldará.

Pensámos ver que o povo era o chamado

a empunhar estandartes, que homens,

que estado ou pensamento eram os seus.

Passámos em revista o povo alemão.

 

E logo vimos vir

a multidão confusa

e pálida, a seguir

os traços de uma cruz

em sangue inscrita;

que é fácil iludir

em tais pendões a turba.

 

Vimos marchar prá guerra

alguns homens joviais

e vimos sobre o chão

rastejar muito mais.

Nem pragas, lamentos,

perguntas, nem ais,

que tudo abafavam

as músicas marciais.

 

Passaram cinco invernos,

e agora com seus filhos

vêm e com as mulheres.

Não crêem ser possível

mais cinco outros haver.

Assim, trazem consigo

também doentes, velhos,

e perante nós desfilam

em numeroso exército.

 

Bertolt Brecht

(trad. Fiama Hasse Pais Brandão)

Terror e a Miséria no Terceiro Reich

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06
Fev 13
06
Fev 13

PAI

Trago a morte comigo

e empresto-lha pai de longe...

 

No bosque que as vozes infantis modificam

 

Onde cai a húmida fonte

da força telúrica dos tis que picam

em vago bem-estar...

 

Onde a consciência se transforma

em silêncio pendular e riso...

Monte...

 

Forte, emboscado, conciso.

Doce lembrança,

que fosse bocado de cedro,

cheiro azedo, dança,

tinteiro, ternura...

 

Ainda o consigo imaginar...

Perdura inteiro, indeciso

na fulgurante pujança do recordar...

 

1 a 3.9.2000

 

Paula Paz

in Viola Delta, vol. XXX

(«poemas sobre o Pai»)

publicado por RAA às 13:32 | comentar | favorito
03
Fev 13
03
Fev 13

VERSOS DE PURA SAUDADE

                           AO JOSÉ RÉGIO

 

Não terá consolação

A mágoa de ver partir,

Os que nos são mais queridos.

 

Decerto,

Nunca serão esquecidos

Todos aqueles que anadaram

Mais perto,

Que foram qause de nós,

E que em noss'alma gravaram

O jeito da sua alma,

O timbre da sua voz...

 

O mesmo sonho que os trouxe,

Na mesma onda os levou!...

 

Mas aqueles, cujos sonhos, 

Nascidos como enleados

Subiram,

À mesma luz floriram,

Duma só haste caíram

Desfolhados,

Serão mais do que lembrados!...

 

A vida como um clarão!

Todos meus pensamentos por defesa,

Resvalo desta impotência,

A algema desta certeza:

Que não tem consolação

A mágoa de os ver partir,

De lágrimas quase no olhar,

                                 Sorrindo...

                                        Partindo...

 

Fausto José

presença  #16,

Coimbra, 1928

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01
Fev 13
01
Fev 13

POETRY: THE WORD I AM THINKING OF

& não será

a poesia

(femme fatale)

apenas uma palavra

dentro de outra palavra

que não quer dizer nada

& não será

a poesia

(femme publique)

apenas a migalha

dentro de outra migalha:

fogo de palha

& não será

a poesia

(femme de chambre)

apenas o ar assoprado

por um aloprado

no ouvido do olvido

& não será

a poesia

(femme grosse)

apenas o resto

de um almoço indigesto

entre convivas do inferno

?

 

o que será

(une femme: infâme)

será

 

Carlos Ávila

in Na Virada do Século -- Poesia de Invenção no Brasil

(edição de Claudio Daniel e Frederico Barbosa)

publicado por RAA às 13:44 | comentar | favorito