20
Jun 13
20
Jun 13

VIAGEM DE INVERNO

2

 

Um salto de raposa sobre a estrada

último sol à beira da fronteira.

Depois somente a sombra

duma lua diurna

a câmara dos ecos

e círculos de corvos sobre a neve.

 

Viagem de inverno

metáfora fechada deslizando

em espelho opaco

gotícula de sémen

pulsando sobre pele infecundada

contexto desconexo

 

viagem literalmente de inverno

literalmente viagem

por estradas escorrendo rios turvos

nas ondas congeladas das montanhas

com troncos encravados

mastros brancos de frotas soterradas

 

até que muito ao Leste

o hotel aberto

vazio e duvidoso

galo campestre em luxo desplumado

e onde o chefe já perdera a estrela

por exagero de maçã nos molhos.

 

Helder Macedo,

Viagem de Inverno

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19
Jun 13

O PESCADOR

A terra bebeu a neve

       e, de novo, desabrocham

as flores de pessegueiro.

       O lago é prata derretida

e são ouro recente

       as folhas do salgueiro.

Sobre as flores

       borboletas empoadas

descansam suas cabeças de veludo.

       Quebra-se a superfície do lago

quando, do barco parado,

       o pescador lança as redes.

Seu pensamento está com a mulher amada.

       Ele regressa ao lar,

tal como a andorinha

       leva comida ao seu par.

 

Poemas de Li Bai

(trad. António Graça de Abreu)

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19
Jun 13

CANTO JOVEM

Somos filhos da madrugada

Pelas praias do mar nos vamos

À procura de quem nos traga

Verde oliva de flor no ramo

Navegámos de vaga em vaga

Não soubemos de dor nem mágoa

Pelas praias do mar nos vamos

À procura da manhã clara

 

Lá do cimo duma montanha

Acendemos uma fogueira

Para não se apagar a chama

Que dá vida na noite inteira

Mensageira pomba chamada

Companheira da madrugada

Quando a noite vier que venha

Lá do cimo duma montanha

 

Onde o vento cortou amarras

Largaremos pela noite fora

Onde há sempre uma boa estrela

Noite e dia ao romper da aurora

Vira a proa minha galera

Que a vitória já não espera

Fresca brisa moira encantada

Vira a proa da minha barca

 

José Afonso

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18
Jun 13
18
Jun 13

DE BINÓCULO

Abaixando o copázio

Empunhando o espadim

Levantando o corpanzil

Indiferente ao poviléu

O homenzarrão abriu a bocarra

fitando admirado

a naviarra do capitorra

 

 Carlos Saldanha

in Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1975)

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17
Jun 13

ERVA

Amontoem cadáveres em Austerlitz e Waterloo,

Enterrem-mos bem e deixem-me à solta --

          Eu sou a erva, escondo tudo.

 

Montes de corpos em Gettysburg

E montes de corpos em Ypres e Verdun.

Enterrem-mos bem e deixem-me à solta.

Dois anos, dez anos, e os passageiros para o condutor:

          Que sítio é este?

          Agora, onde estamos?

 

          Eu sou a erva,

           Deixem-me à solta.

 

Carl Sandburg

Jorge de Sena, Poesia do Século XX

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17
Jun 13

ADOLESCÊNCIA

Na varanda, um instante

ficámos os dois sós.

Desde aquela manhã

tão doce, éramos noivos.

 

-- Sonolenta, a paisagem

dormia em vagos tons

sob o céu gris e rosa

do poente de outono --.

 

Disse que ia beijá-la;

baixou, serena, os olhos

e ofereceu-me as faces

como perdendo um tesouro.

 

-- Caíam folhas mortas

no jardim silencioso,

e no ar errava ainda

um olor de girassóis --.

 

Não se atrevia a olhar-me;

disse eu que éramos noivos,

... e as lágrimas rolaram-lhe

dos olhos melancólicos.

 

Juan Ramón Jimenez,

Antologia Poética

trad.: José Bento 

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14
Jun 13

SEM PROFISSÃO

o sol

(fraco e frio)

entre ferragens retorcidas

oxidadas

depois de dias de chuva

 

(fios

árvores caídas

lixo por toda a parte)

 

de uma janela

aberta na tarde

sai o som de uma remington

(movida a lenha)

 

um homem sem profissão

tenta o impossível:

escrever um poema

 

a luz

(fraca e fria)

não aquece o seu coração

 

Carlos Ávila

in Claudio Daniel e Frederico Barbosa,

Na Virada do Século -- Poesia de Invenção no Brasil (2002)

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14
Jun 13

ANTERO DE QUENTAL, O ANJO CANSADO

     os dias iam indo sem sair da noite.

     todas as manhãs um cão entrava nos seus passos para lhe fazer companhia.

     colocou tudo dentro de uma rasura de soneto e fechou a porta.

     fechar a alma era coisa já antiga. como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras de cor.

     a vida poucas vezes lhe deu tempo de guardar no bolso o que era do silêncio, esse riso de hiena armadilhado que põe mel no rumor do medo.

 

     chegou ao Campo de São Francisco à hora que acordara.

     a morte já lá estava com as asas recolhidas.

     sentou-se, deu ao cão um longo afago, aconchegou-o junto às suas pernas, e deixou pousar nos lábios o sal de duas lágrimas.

     depois, devagarinho, tirou do bolso a mão direita e deu dois tiros na morte.

 

     no chão, desde aquele dia, ficou o recorte de uma sombra.

     quem a vê, dá-lhe o nome de sudário.

     e reza.

 

Ilha de S. Miguel, Açores

 

Emanuel Jorge Botelho,

in Cão Celeste #2 (2012)

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13
Jun 13

O CORVO DE HYDE PARK (1989)

Com o bico levanta as folhas de setembro

Nos intervalos ouve a música dos pássaros

e volta a caminhar sobre a relva manchada

Pára de novo escuta e voa baixo

sobre o tapete verde e castanho do tempo

 

Gastão Cruz,

As Leis do Caos / O Escritor #22 (2007)

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13
Jun 13

TERRA

9

 

Se o vento dorme,

quem soprará as velas do moinho?

E a chuva para o milho?

      -- Senhor, valei-nos!

Se o vento dorme,

quem buscará as nuvens de longe?

O povo debruçado sobre os céus;

-- onde andará a chuva? onde andará o vento?

       -- Santo António, protector da freguesia, valei-nos!

A terra sua um suor torrado de seca.

       -- Virgem Maria, valei-nos!

Ah, mas lá vem o sr. prior com as ladainhas

e a água benta para a terra.

       -- Escutai o clamor dos homens e dos campos! Senhor, valei-nos!

Se o vento dorme,

quem buscará as nuvens de longe?

 

Fernando Namora,

Terra

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