15
Jan 14

"Não desprezes tuas vestes"

Não desprezes tuas vestes

Só porque elas estão usadas:

É por causa do teu corpo

Que se encontram assim conspurcadas.

 

Al-Mirtuli

in Adalberto Alves,

O Meu Coração É Árabe --

A Poesia Luso-Árabe (1987)

publicado por RAA às 19:58 | comentar | favorito

RODOPIO

Volteiam dentro de mim,

Em rodopio, em novelos,

Milagres, uivos, castelos,

Forcas de luz, pesadelos,

Altas torres de marfim.

 

Ascendem hélices, rastros...

Mais longe coam-me sóis;

Há promontórios, faróis,

Upam-se estátuas de heróis,

Ondeiam lanças e mastros.

 

Zebram-se armadas de cor,

Singram cortejos de luz,

Ruem-se braços de cruz,

E um espelho reproduz,

Em treva, todo o esplendor...

 

Cristais retinem de medo,

Precipitam-se estilhaços,

Chovem garras, mantas, laços...

Planos, quebras e espaços

Vertiginam em segredo.

 

Luas de oiro se embebedam,

Rainhas desfolham lírios;

Contorcionam-se círios,

Enclavinham-se delírios.

Listas de som enveredam...

 

 

Virgulam-se aspas com vozes,

Letras de fogo e punhais;

Há missas e bacanais,

Execuções capitais,

Regressos, apoteoses.

 

Silvam madeixas ondeantes,

Pungem lábios esmagados,

Há corpos emaranhados,

Seios mordidos, golfados,

Sexos mortos de anseantes...

 

(Há incensos de esponsais,

Há mãos brancas e sagradas,

Há velhas cartas rasgadas,

Há pobres coisas guardadas --

Um lenço, fitas, dedais...)

 

Há elmos, troféus, mortalhas,

Emanações fugidias,

Referências, nostalgias,

Ruínas de melodias,

Vertigens, erros e falhas.

 

Há vislumbres de não-ser,

Rangem, de vago, neblinas,

Fulcram-se poços e minas,

Meandros, pauis, ravinas,

Que não ouso percorrer...

 

Há vácuos, há bolhas de ar,

Perfumes de longes ilhas,

Amarras, lemes e quilhas --

Tantas, tantas maravilhas

Que não se pode sonhar!...

 

Mário de Sá-Carneiro,

Poemas Escolhidos

(edição de Clara Rocha)

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15
Jan 14

O MEU RISO

Bem de meus olhos, pobres olhos nunca enxutos,

Por onde corre a minha mágoa em brando rio,

Aonde vem pousar o teu olhar macio

Que tem o bom dulçor dos mais suaves frutos.

 

Quando o Coveiro, um dia, arremessar, sombrio,

O teu corpo gentil aos vermes resolutos,

De lá, da esfera azul dos astros impolutos,

Verás então, Mulher, verás como eu me rio…

 

Um riso contrafeito, uma ironia à toa…

Linda Mulher honesta e frágil como um cicio…

Que eu não te quero a ti para noivar, perdoa!

 

Porque o meu lábio beijou a Podridão,

Nas alcovas do Mal onde germina o Vício,

Onde a alma é um farrapo e o Amor uma traição!

 

José Duro,

Fel (1898)

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