28
Out 14

NO COMBOIO DESCENDENTE

No comboio descendente

Vinha tudo à gargalhada,

Uns por verem rir os outros

E os outros sem ser por nada

No comboio descendente

De Queluz à Cruz Quebrada...

 

No comboio descendente

Vinham todos à janela,

Uns calados para os outros

E os outros a dar-lhes trela

No comboio descendente

De Cruz Quebrada a Palmela...

 

No comboio descedente

Mas que grande reinação!

Uns dormindo, outros com sono,

E os outros nem sim nem não

No comboio descendente

De Palmela a Portimão...

 

Fernando Pessoa,

in Poetas de Hoje e de Ontem

-- do Século XIII ao XXI

para os mais novos

(edição: Maria de Lourdes Varanda

& Maria Manuela Santos)

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28
Out 14

SECA

É de água a sede da paisagem

que o som da música enlanguesce.

Pedem meus olhos a miragem

de branca nuvem, fria aragem

-- virgem morena que adolesce.

 

É de água a sede deste monte

em sal e areia acontecido.

Venha a ternura de uma fonte!

Lírico som que em mim desponte

e saiba a céu e a ter vivido.

 

Daniel Filipe, A Ilha e a Solidão

(in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban I, 1975)

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