ANTECIPAÇÃO

As patas da noite esmagam

os lírios débeis da aurora.

Por invisíveis estradas

negros cavalos galopam.

Ao longe brilham dois lagos

da cor triste de teus olhos.

Dunas de angústia se formam

nas praias frias da morte.

Agito os braços. É inútil

tentar opor à corrente

de areia e sangue, que avança,

os versos frágeis de um poema.

É inútil falar de rosas

e frutos novos e agrestes

flores, quando no peito,

cardos apenas florescem.

A aurora é doce. E anuncia

um dia calmo, entre o canto

dos pássaros e a alegria

da primavera nos campos.

Amada, não mais veremos

o dia que se levanta.

Negros cavalos galopam,

já é menor a distância...

Serão altas como nuvens,

no céu claro da manhã,

as rosas que hão-de nascer

de minha carne e teu sangue.

 

Domingos Carvalho da Silva

publicado por RAA às 12:56 | comentar | favorito