21
Set 18

de A MENINA GOTINHA DE ÁGUA

[...]

Era

um dia de sol

na Primavera,

trinavam

os passarinhos

nos seus violinos,

tocavam os grilos

e os grilões

nos seus rabecões,

assobiavam os melros

nos seus flautins

e os sapos,

os sapinhos

e os sapões,

à porta

das suas casotas,

estavam a ouvir

contada pelo sapo Zé Manel

a história

dum menino

que foi poeta e pastor

da Primavera

e que era

muito amigo

dos sapos

e sapinhos

e sapões

e de todos

os que são

(como os sapos)

humildes mas têm

bom coração.

 

Papiniano Carlos, A Menina Gotinha de Água (1962)

Crianças-SapoZeManel-JoanaQuental-PapinianoCarlos

(Joana Quental)

 

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20
Set 18

"Sentes-te bem ao ar livre."

Sentes-te bem ao ar livre.

Ainda assim, preferes o ataúde.

 

Descansa, minha vida,

mesmo se tu até em sonhos acredites

que todos merecemos salvar-nos.

Sobrevivermo-nos.

 

Dorme, meu estupor,

enquanto as jarras de lírios

dissimulam a porta do teu breve inferno.

 

Já sei.

Tens medo.

Estás perdida na tua condição de mulher

e queres agora encontrar uma saída.

 

Relaxa, meu amor,

a meta é simples:

cair no esquecimento.

Tu vais lá chegar antes.

 

Golgona Anghel, Nadar na Piscina dos Pequenos (2017)

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19
Set 18

"O tempo"

O tempo

             com suas garras de rapina

deita raízes

            no chão rasteiro de nossas vidas.

 

 

 

                                   E ele mesmo as arranca

 

Lúcio Autran, Fragmentos de um Exílio Voluntário (2016)

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11
Set 18

ONDAS GRAVITACIONAIS: REGISTOS

Explodiram pelo espaço em rota para lá

da imaginação. Não se sabe de Deus

neste processo de fenda de universos

 

E as palavras hesitam-se,

paradas.

 

             Não se ouviu nada, nada foi visto

claramente visto, mas é o que se chama

nesta língua de nós, criada e aprendida

em formato de azul: registo

 

Ana Luísa Amaral, What's in a Name? (2017)

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09
Set 18

"O rio correu entre nós"

O rio correu entre nós

ascendendo

para a terra. Espera-nos

o pó. Um pó

apaixonado.

 

Casimiro de Brito, Música Nua (2017)

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08
Set 18

OS VELHOS

já antevejo as ruas

engolidas por praças

donde se adivinha o mar

uma brisa a debater-se

contra o nevoeiro do entardecer

e uns velhos a soletrar

os prestígios de uma estirpe

a que nunca pertenceram,

até que se calam

e ficam a olhar o molhe

com os olhos rasos de água,

as mãos, essas,

há muito que estão cobertas

por uma sombra~e é por isso que não as mexem,

como se estivessem embrulhadas

num lençol de nostalgia

ou simplesmente de lama

ou mesmo de merda.

 

Manuel Afonso Costa, Memórias da Casa da China e de Outras Visitas (2017)

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05
Set 18

ESTAR NA VIDA

Não sabemos bem a partir de que momento começamos a ter, não tanto a percepção da morte mas a noção de uma mudança na natureza da nossa existência, a perda da ilusão de energia que tinha sido a nossa, igual à do adolescente que entra na carruagem do metro e, cumprimentando outro com uma forte palamada da sua mão na dele, ignora a morte, mas ignora talvez também a vida, não sabe que está na vida.

 

Gastão Cruz, Existência (2017)

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04
Set 18

O CÃO

Tenho coleira, colete,

tenho cama, tenho trela.

Mas bem trocava riquezas

por uma bela cadela.

 

Vivo de papo para o ar,

sempre no maior conforto.

Mas eu queria caçar gatos,

que é um grande desporto.

 

Tenho dono, tenho carro,

como bifes à vontade.

Mas sonho com o perfume

do vento, da liberdade.

 

Uso spray anti-carraças

e um sabão anti-pulgas.

Tu julgas que sou feliz.

Ah, isso é o que julgas.

 

Luísa Ducla Soares, Arca de Noé (1999)

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02
Set 18

BLUE MOON

Noite, tão de negrume, ora estrela,

riscada em prata, por lunar somente

e, ora calada, quão por entre nuvem,

dor que invade o vulto desse vento...

 

Fillinto Elísio, Zen Limites (2016)

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30
Ago 18

A DANÇA DOS TEMPOS POSSÍVEIS

O passado não dorme

nem jazz.

 

Recusa a quietude

da memória

mas sem me chamar

para dançar.

 

Gira mundo e sozinho, sozinho,

entrecruzando meus caminhos

presentes, lançando ao ar

o perfume em torvelinho

de passados outros, e presentes,e futuros

que poderiam ser, e ter sido, e contudo...

 

Thássio G. Ferreira, (Des)nu(do) (2016)

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