26
Jan 15

MUDA AOS CINCO, ACABA AOS DEZ

Fui-te à cona, fui-te ao cu

obriguei-te a fazer broche

fiz-te vir em catadupas

mas no fim fui teu fantoche

 

Dick Hard, De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

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18
Nov 14

VERSOS DA BELA ADORMECIDA

Lá longe, muito longe, ai, muito longe!, ao fundo

              De areias e gelos do cabo do mundo,

Depois de ralos, aflições, suores, dragões, ciladas, perigos,

              E bosques tenebrosos, antigos, antigos.

 

Sonhei que ela me espera, adormecida

             Desde o começo da vida,

Nua, deitada sobre as tranças de oiro,

             Guardada para mim como um tesoiro.

 

             Sonhei que um nimbo argênteo a veste,

Raiando o céu de norte a sul, de leste a oeste,

             E que sobre ela paira o silêncio profundo

             Dos gelos e areias do cabo do mundo...

 

No seu lábio, um sorriso ainda transido

Ficou, como na boca das estátuas, esculpido,

               Esperando, talvez, para raiar,

               Que ela suba as pestanas, devagar...

 

Vi uma vez, em sonhos vi, que aquelas pálpebras se erguiam,

Sim, devagar..., sim, devagar..., e que os seus lábios me diziam,

             Estendidos para mim:

             -- «Chegaste?, chegaste enfim?!»

 

             E eu soluçava: -- «Sim, sou eu...!

«Mas tu..., és tu, bem tu, Porta do Céu?!

«És tu, ou não és mais que mais uma miragem

«Das tantas que encontrei pela viagem? 

 

«Ai, que de vezes já supus que te possuía

«Em uma imagem que afinal era vazia, era vazia!

«E que longe, afinal, te não venho encontrar,

«Que passei ermos, passei montes, passei pegos, passei mar...»

 

Foi isto em sonhos. Acordado, eu perguntava: -- «Que farei?

               «Aonde... a que longe irei,

«Para que vos atinja, ó silêncios sem fundo

               «De areias e gelos do cabo do mundo?

 

«Anjos, demónios, serafins de asas de lanças e cabelos

               «De chamas e serpentes aos novelos,

               «Génios que em sonhos me guiais!:

               «Já me não bastam sonhos! Quero mais.

 

               «Quero, através seja de que desertos,

                «Chegar a ver, com olhos bem despertos,

                «O resplendor que sei que a veste,

                «Raiando o céu de norte a sul, de leste a oeste...»

 

Assim falei. Ninguém, porém, me mostrou ter ouvido.

               Meu grito, além, se extinguiu já, perdido...

E eu morro deste ardor, que nada acalma,

               Com que aspiro debalde à minha própria alma.

 

 

José Régio,

As Encruzilhadas de Deus (1936)

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02
Nov 14

CAMPONESES

2

 

O quarto das cebolas.

Por trás da porta esburacada

uma rapariga nua

de belíssimas mamas enxutas puxadas para cima

um cão de lombo comprido o pêlo esticado

outra rapariga de mamilos violentos

-- um sol viúvo.

 

Praia da Granja

-- Inverno de 2005

 

Abel Sabaoth

[Fernando Grade],

in Viola Delta vol. 42, 2006

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06
Out 14

MULHER

Não saíste, Mulher, inteiramente,

Das mãos de Deus! A sede e a formosura

Dos homens completam a figura

Divina que tu és, -- eternamente.

 

O amor do homem, na ansiedade ardente,

Vestiu de glória a mocidade pura

Da tua vida. Para ti procura

Um canto o Poeta, infatigàvelmente.

 

Sem descanso, o pintor, numa ansiedade,

Às tuas formas dá actividade,

Para dornar teu corpo alvo e risonho.

 

Jardins, o mar e a terra abrem o seio,

Dão-te oiro, flores, pérolas, enleio...

 

-- És metade Mulher, metade Sonho!

 

Rabindranath Tagore,

 

Poesias de Tagore (O Músico e o Poeta)

(versão de Augusto Casimiro)

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22
Set 14

CHORA À VONTADE, FILHA!

Só te quero dar orgasmos

Se não forem vaginais

Qu'ejacules à vontade

Das bolsas lacrimais

 

Dick Hard, De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

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21
Jul 14

DISTÂNCIAS

Medida em centímetros

de margalho

qual a distância que vai

da ternura à luxúria?

 

Dick Hard,

De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

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18
Jul 14

AMORES, AMORES

Não sou eu tão tola

Que caia em casar;

Mulher não é rola

Que tenha um só par:

     Eu tenho um moreno,

Tenho um de outra cor,

Tenho um mais pequeno,

Tenho outro maior.

 

Que mal faz um beijo,

Se apenas o dou,

Desfaz-se-me o pejo,

E o gosto ficou?

     Um deles por graça

Deu-me um, e depois,

Gostei da chalaça,

Paguei-lhe com dois.

 

Abraços, abraços,

Que mal nos farão?

Se Deus me deu braços,

Foi essa a razão:

    Um dia que o alto

Me vinha abraçar,

Fiquei-lhe de um salto

Suspensa no ar.

 

Vivendo e gozando,

Que a morte é fatal,

E a rosa em murchando

Não vale um real:

     Eu sou muito amada,

E há muito que sei

Que Deus não fez nada

Sem ser para quê.

 

Amores, amores,

Deixá-los dizer;

Se Deus me deu flores,

Foi para as colher:

     Eu tenho um moreno,

Tenho um de outra cor,

Tenho um mais pequeno,

Tenho outro maior.

 

João de Deus,

Campo de Flores

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19
Jun 14

"Na Primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido."

Na Primavera, gosto de me sentar na orla de um campo florido.

E, quando uma bela rapariga me traz uma taça de vinho,

não me importa nada a minha salvação.

Se eu tivesse essa preocupação, valeria menos que um cão.

 

Omar Khayyam, Odes ao Vinho

(versão de Fernando Castro)

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04
Jun 14

DESPESA PÚBLICA

Suava ele atrás da call-girl; suava eu à frente da pequena

Ele enfiava, convicto da vitória; eu penetrava, ciente da glória

Desafiou-me, impante de tesão; e proferiu, ciclone em vozeirão:

"Ó Zé, o último a vir-se paga a despesa!"

 

Dick Hard,

De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

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12
Mai 14

LA VÉNUS CALLYPIGE

Du temps des Grecs, deux sœurs disaient avoir
Aussi beau cul que filles de leur sorte ;
La question ne fut que de savoir
Quelle des deux dessus l'autre l'emporte :
Pour en juger, un expert étant pris,
À la moins jeune il accorde le prix,
Puis, l'épousant, lui fait don de son âme ;
À son exemple, un sien frère est épris
De la cadette, et la prend pour sa femme ;
Tant fut entre eux à la fin procédé,
Que par les sœurs un Temple fut fondé,
Dessous le nom de Vénus belle fesse.
Je ne sais pas à quelle intention ;
Mais c'eût été le temple de la Grèce
Pour qui j'eusse eu plus de dévotion. 

 

Jean de La Fontaine,

in Pierre Ripert,

Dictionaire Anthologique de la

Poésie Française

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