02
Fev 12

PORTO

Havia nos olhos posto o sentido

de não vencerem distâncias.

Calados, mudos, de lábios colados no silêncio

os braços cruzados como quem deseja

mas de braços cruzados.

 

Os navios chegavam aos portos e partiam.

Os carregadores falavam da gente do mar.

A gente do mar dos que ficam em terra.

As mercadorias seguiam.

Os ventos dispersos na alma do tempo,

traziam as novas das terras longínquas.

Segredavam-se em noite e dias

a todos os homens

em todos os mares

e em todos os portos

num destino comum.

 

Os navios chegavam ao porto

e partiam...

 

Alexandre Dáskalos

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31
Jan 12

CINZEIRO

À noute quando escrevo

Tenho fantasias

Que não chego a escrever

Nem conto a ninguém.

 

Esta, por exemplo,

De ver um paquete

No meu cinzeiro

De feitio oblongo!

 

Ponho nele, de pé,

As pontas dos cigarros.

São mastros

E chaminés fumegantes...

 

Os fósforos

São carregamento

E a cinza

São as cinzas das fornalhas...

 

Deito nele

Pedacinhos de papel que eu rasgo,

-- Restos de algum poema...

São cartas para longe.

 

Voam à roda do meu cinzeiro

Pequeninos insectos tropicais,

Companheiros nocturnos

Dos poetas da minha terra.

 

São os pássaros marinhos,

As gaivotas,

Que vêm espreitar

De perto o paquete.

 

Empurro-o com a mão

E o paquete lá vai,

Com o rumo traçado

Através do Atlântico.

 

Lá vai!

Os passageiros da primeira

Passeiam no «deck»

Ou jogam o «bridge».

 

E a rapariga loura

Estira-se indolente

Na cadeira de lona

A ler um romance...

 

No convés da terceira classe,

Um emigrante qualquer

Debruçou-se na borda

Olhando o horizonte...

Sou eu.

 

Jorge Barbosa

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28
Dez 11

BARCOS

À querida ilha de São Vicente

de Cabo Verde.

 

       «Nha terra ê quel piquinino

       ê São Vicente ê quê di meu.»

 

Nas praias

Da minha infância

Morrem barcos

Desmantelados.

 

Fantasmas

De pescadores

Contrabandistas

Desaparecidos

Em qualquer vaga

Nem eu sei onde.

 

E eu sou a mesma

Tenho dez anos

Brinco na areia

Empunho os remos...

Canto e sorrio

À embarcação:

Para o mar!

É para o mar!...

 

E o pobre barco

O barco triste

Cansado e frio

Não se moveu...

 

Cambambe, 3 de maio de 1962

 

Yolanda Morazzo

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02
Dez 11

PARA O MAR 3

Águas marinhas

sobem acima

do nível do mar.

 

Sambaquis submersos

na memória

das marés.

 

Barco sem saída

e eu aqui

nesse convés.

 

Antonio Risério

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24
Nov 11

A DOENÇA DA PEDRA

Os barcos padeciam da doença da pedra:

estavam imóveis sobre os ancoradouros

como se não existisse a tentação do mar.

Tinham cordas enrodilhadas, remos ensarilhados,

velame estendido no convés, e, para além disso,

um imenso vazio a inundar os porões e as pontes.

Apodreciam, pacientes, à míngua de vento,

saudoso do embalo das ondas,

desnorteados pela falta de rota.

Eram barcos com uma embriaguez de vento

erguida na proa e uma coroa de algas

levantada nos mastros. Vinham altivos

do mar de outros séculos, arrecadando no bojo

um tesouro de vozes, uma bravura corsária,

uma cobiça de oiro. Deitava-me neles

com um sonho enredado nas malhas que tiram

sustento das águas e com um mapa

para sempre guardado na febre dos olhos.

 

José Jorge Letria

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09
Out 11

ONTEM NA BOCA DO INFERNO

Ontem olhando o mar que penetrava

sob as escarpas num rumor difuso

de fim de primavera quando a brava

cratera do inverno esquece o uso

 

dado às águas, enquanto te escutava

como um vulcão de sentimento (escuso

falar-te do amor de que essa lava

de palavras mortais movia o fuso

 

nas nossas vidas oscilantes) vi

novamente na voragem no teu rosto

ao inferno descido O mar em ti

 

reflectia-se não como o reposto

equilíbrio das águas na estação

visível mas como água da paixão

 

Gastão Cruz

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24
Ago 11

PAZ (1)

Pedrinhas que o mar trouxe à areia branca,
Algas ao tanque verde a cor do rio,
Minha alma se desprende em luz, sombrio
O corpo sem entrada à porta franca.

Meus sonhos quem os fez nascer tranquilos,
Serenos? Não seria a hora incerta
Que o coração ouvisse a voz desperta
E deles não seria mais que ouvi-los.

Ó sugestão marítima perdida,
De algas e rios e o mais que à vida
Deve meu ser tornado em marinheiro,

Acorda em mim de novo a voz distante
De horizontes sem fim e a cada instante
Traz-me a paz tão roubada ao mundo inteiro.

Arnaldo França
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21
Jun 11

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram!
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar,
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa
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11
Jun 11

ENTARDECER

Adormeceste a olhar o mar
Enquanto o sol se acoitava nas varandas.
Suave, na cortina da tarde,
O piano de águas tocava vagarosamente
Música para um destino branco,
Longínquo, azul e cada vez mais branco.

João Manuel Bretes
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27
Mai 11

NEM NAVIO

Nem navio nem sombra de nuvem no mar
para um adeus de largada...

             Esta saudade infinita
             é uma ilusão que se disfarça.

Grita
que a dor passa!

-- Saudade é voz ancorada...

Manuel Lopes
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