21
Mar 13

FOTOGRAFIA DOS MEUS AVÓS

Ela tem o corpo levemente inclinado

acompanhando, também com a cabeça,

a bela doçura do olhar que a tarde continua

e que mistura, ao rumor da alegria,

para cujo lado o rosto se inclina

a sombra já como conjura de uma

quase visível nostalgia;

nele há um pouco mais de desajuste,

de susto, corpo grande e no entanto pueril

no fruste meneio das mão atrapalhadas,

aos atoleiros da vida desatreito, cerrado,

viverá entre caçadas e cães

e morrerá na Ria.

 

Maria Andresen,

O Escritor #22

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06
Fev 13

PAI

Trago a morte comigo

e empresto-lha pai de longe...

 

No bosque que as vozes infantis modificam

 

Onde cai a húmida fonte

da força telúrica dos tis que picam

em vago bem-estar...

 

Onde a consciência se transforma

em silêncio pendular e riso...

Monte...

 

Forte, emboscado, conciso.

Doce lembrança,

que fosse bocado de cedro,

cheiro azedo, dança,

tinteiro, ternura...

 

Ainda o consigo imaginar...

Perdura inteiro, indeciso

na fulgurante pujança do recordar...

 

1 a 3.9.2000

 

Paula Paz

in Viola Delta, vol. XXX

(«poemas sobre o Pai»)

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20
Dez 12

"Vinhas só"

Vinhas só,

o olhar poeirento

e um oásis de esperança

nas mãos desertas.

 

Vinhas só,

as carnes acesas em sangue,

os cabelos de sombra estendidos

pela terra imensa mordida de dor;

e na areia solta dos teus pés

eu vi as raízes de África.

 

Chegaste

com passos velhos de ecos

que soaram

batuque e conquista

nas noites tumultuosa da Impis.

 

Chegaste

e cresceste em mim

no gritos dos tempos.

Descansa à sombra da minha Vontade,

mãe,

eu continuarei a Jornada.

 

Manuel Lima

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14
Fev 12

...

o teu sono anoiteceu mais que a noite

e hei-de escrever-te sempre sem que nunca

te escreva sei as palavras que fechaste

nos olhos mas não sei as letras de as dizer

ensina-me de novo se ensinares-me for

ir ter contigo ao teu sorriso ensina-me

a nascer para onde dormes que me perco

tantas vezes numa noite demasiado pequena

para o teu sono num silêncio demasiado fundo

dormes e tento levantar a pedra que te

cobre maior que a noite o peso da pedra que

te cobre e tento encontrar-te mais uma vez

nas palavras que te dizem só para mim

o teu sono anoiteceu mais que as mortes

que posso suportar e hei-de escrever-te

sempre e mais uma vez sozinho nesta noite

 

José Luís Peixoto

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19
Jan 12

FONTE

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta

agora entre águas e silêncios.

Nada te acorda -- nem as folhas dos ulmos,

nem os rios, nem os girassóis,

nem a paisagem arrebatada.

-- Espero do tempo novo todos os milagres,

menos tu.

 

Corres somente no meu sangue memoriado

e sobes, carne das palavras outra vez

imperecíveis e virgens.

-- Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,

outras mãos mais puras

e mais sagazes,

e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude

inteligente.

 

-- Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.

Mas tu estarás mais branca com a boca selada

pelas pedras lisas.

E sei que terei o amor e o pão e a água

e o sangue e as palavras e os frutos.

Mas tu , ó rosa fria,

ó odre das vinhas antigas e limpas?

 

Do tempo novo espero

o sinal ardente e incorrupto,

mas levo os dedos ao teu nome prolongado,

ó cerrada mãe, levo

os dedos vazios --

e a tua morte cresce por eles totalmente.

 

Herberto Helder

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17
Jan 12

VOZES

Vozes ideais e amadas

daqueles que morreram, e daqueles que são

para nós perdidos como os mortos.

 

Às vezes nos nossos sonhos falam;

às vezes no pensamento as ouve a mente.

 

E com o seu som por um momento regressam

sons da primeira poesia da nossa vida --

qual música, à noite, longínqua, que se apaga.

 

Konstandinos Kavafis

 

(Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

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30
Out 11

NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

a trazer-me da água a infância ressurecta.

 

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

que ficava, no cais, à noite iluminado...

 

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

mais da terra fazia o norte de quem erra.

 

Vem tu, Poesia, vem agora conduzir-me

à beira desse cais onde Jesus nascia...

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

 

David Mourão-Ferreira 

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06
Set 11

LOS CAMINOS SECRETOS

Los fronterizos, los que pasen solitarios
contrabandistes, maquis, carabineros,
los que marca nel atlas con tinta azul
la pensatible mano d'una nena
qu'inda nun sabe que ye Lady Macbeth,
los que taliara mio padre per tierres del Bierzo
y aquellos perpindios pelos que yo atayaba
con tebeos baxo'l brazu
pa llegar a la caseta
de lates, plásticu y fierro
onde m'esperaben los trece
años de Yolanda la del carteru.

Los caminos secretos baxo la húmida
lluz d'una tarde antigua de marzu,
la breda erma d'un poema de Kipling
que copié nun cuaderno va pa diez años
nuna bufarda de la cai Escura.
Los que llevo anoyaos al corazón
y me train y me lleven
dica esa última alcoba que nun soi
-- bates blanques, doutores... -- pa imaxinar.

Xuan Bello
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03
Set 11

SOBRE O LINHO

A avó inclina-se sobre o linho
guarda estrelas no cesto do carvão
com as mãos gretadas pelo gelo das manhãs
pelos cristais de água da estação das chuvas

As histórias que conta são
as do assombro e da claridade ofuscada
pelo rasto dos cometas

Vorazes são os lobos insones
à beira dos portões da infância:
as crianças voam para o céu

Vejo-a arquejante sobre as almofadas
com a primavera agonizando nas janelas

José Jorge Letria
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17
Mai 11

UMA DE NOME EMÍLIA

uma mulher nasceu em Trás-os-Montes
e veio dar-me à luz cá no Brasil
dela só soube o nome (e era Emília)
antes que eu mais soubesse, ela partiu.

deixou porém vagando no meu sangue
caravelas herdadas a Cabral
que inflando suas velas invisíveis
me pedem mar... distâncias... Portugal.

trazem-me estranhas, vagas nostalgias
daquilo que eu não vi nem foi sonhado,
de gentes que eu amei sem tê-las visto,
de campos que eu cruzei sem ter cruzado.

leva-me às vezes com tal força o vento
na direcção do mar, daquelas terras,
que em pensamento parto na procura
do que ficou em mim além das serras.

caminho então por vilas abstractas
em que há ruas e casas de neblina
e espero ver um vulto que me chame
detrás de alguma porta, de uma esquina.

mas nada vejo dessa sombra antiga
que o deslizar do tempo consumiu,
nada que lembre certa transmontana
que teve certo filho no Brasil.

Mário de Oliveira
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