23
Nov 14

"A vida é apenas um jogo monótono"

A vida é apenas um jogo monótono

em que tu estás certo de ganhar dois prémios: a dor e a morte.

Feliz a criança que expirou no dia em que nasceu.

Mais feliz ainda é aquele que não chegou a vir ao mundo.

 

Omar Khayyam, 

Rubaiyat -- Odes ao Vinho

(tradução: Fernando Castro)

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03
Nov 14

"Ninguém pode compreender o que é misterioso"

Ninguém pode compreender o que é misterioso.

Ninguém é capaz de ver o que ocultam as aparências.

As nossas moradas são privisórias, excepto uma: a terra.

Bebe vinho! Basta de palavras supérfluas.

 

Omar Khayyam, Rubayat

(versão de Fernando Castro)

publicado por RAA às 13:43 | comentar | favorito
17
Out 14

"Os sábios e os filósofos mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância."

Os sábios e os filósofos mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância.

E, todavia, eles eram os luminares da sua época.

Que fizeram?

Pronunciaram algumas frases confusas e depois adormeceram para sempre.

 

Omar Khayyam, Rubaiyat

(versão de Fernando Castro)

publicado por RAA às 13:56 | comentar | favorito
06
Out 14

MULHER

Não saíste, Mulher, inteiramente,

Das mãos de Deus! A sede e a formosura

Dos homens completam a figura

Divina que tu és, -- eternamente.

 

O amor do homem, na ansiedade ardente,

Vestiu de glória a mocidade pura

Da tua vida. Para ti procura

Um canto o Poeta, infatigàvelmente.

 

Sem descanso, o pintor, numa ansiedade,

Às tuas formas dá actividade,

Para dornar teu corpo alvo e risonho.

 

Jardins, o mar e a terra abrem o seio,

Dão-te oiro, flores, pérolas, enleio...

 

-- És metade Mulher, metade Sonho!

 

Rabindranath Tagore,

 

Poesias de Tagore (O Músico e o Poeta)

(versão de Augusto Casimiro)

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24
Set 14

"Admitamos que tenhas resolvido o enigma da criação."

Admitamos que tenhas resolvido o enigma da criação.

Qual é o teu destino?

Admitamos que tenhas podido desvendar a Verdade?

Qual é o teu destino?

Admitamos que tenhas vivido cem anos, feliz, e que vivas outros cem:

Qual é o teu destino?

 

Omar Khayyam, Rubaiyat

(trad. Fernando Castro)

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17
Set 14

NO TEMPLO DA MONTANHA

Noite no templo

          do alto da montanha.

Posso levantar a mão,

          acariciar as estrelas,

mas não ouso falar

          em voz alta.

Receio assustar

          os habitantes do céu.

 

Poemas de Li Bai

(versão de António Graça de Abreu)

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24
Jul 14

"O vasto mundo"

O vasto mundo: um grão de poeira no espaço.

Toda a ciência dos homens: palavras.

Os povos, os animais e flores dos sete climas: sombras.

O resultado da tua perpétua meditação: nada.

 

Omar Khayyaam, Rubaiyat

(versão de Fernando Castro)

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23
Jul 14

"Os caminhos desta tarde"

Os caminhos desta tarde

fazem-se um, com a noite.

Por ele irei eu a ti,

amor que tanto te escondes.

 

Por ele irei eu a ti,

como vai a luz dos montes,

como a viração do mar,

como o aroma das flores.

 

Juan Ramón Jimenez, Antologia Poética

(versão de José Bento)

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22
Jul 14

DORME, AMOR

Brilham na vala as gotas salgadas.

A porta está fechada. E o mar,

fervente, erguendo-se e rompendo contra os diques,

absorveu o sol salgado.

Dorme, amor...

                          Não atormentes a minha alma.

Adormecem já as montanhas e a estepe,

e o nosso cão coxo,

                                 de pêlo emaranhado,

deixa-se cair e lambe a corrente salgada.

E o rumor dos ramos,

                                   e o fragor das ondas,

e o cão acorrentado

                                 com toda a sua experiência,

e eu com voz muito branda

                                            e logo num murmúrio

e depois em silêncio

                                 dizemos-te ambos: dorme, amor...

Dorme, amor...

                          Esquece que nos zangámos.

Imagina por exemplo:

                                    acordamos.

                                                        Tudo está fresco.

Caímos sobre o feno.

                                   Temos sono.

                                                        Vem um cheiro a leite azedo

lá de baixo,

                    da cave

                                  convidando a sonhar.

Oh, como poderei fazer-te

                                           imaginar tudo isto,

a ti, tão desconfiada!

                                   Dorme, amor...

Sorri entre sonhos.

                                Não chores mais!

Corta flores e vai pensando

                                              onde hás-de pôlas,

e compra muitos vestidos bonitos.

Disseste alguma coisa?

                             É o cansaço do teu sonho inquieto.

Envolve-te no sonho, agasalha-te bem nele.

Podemos ver em sonhos tudo o que queremos,

tudo o que ansiamos

                                  quando estamos acordados.

É aburdo não dormir,

                                   é mesmo um delito:

o que trazemos oculto

                                     grita-nos nas entranhas.

Que difícil para os teus olhos

                                                trazer tanta coisa!

Debaixo das pálpebras

                                       sentirão o alívio do sonho.

Dorme, amor...

                         Porque estás acordada?

É o bramido do mar?

                                  A súplica das árvores?

Um mau pressentimento?

                                          A sem-vergonha de alguém?

Ou talvez não de alguém

                                         mas simplesmente a sem-vergonha minha?

Dorme, amor...

                          Não é possível fazer nada,

mas sabe desde já que não é culpa minha esta culpa.

Perdoa-me -- estás a ouvir?

                                              Ama-me -- estás a ouvir --

mesmo que seja só em sonhos,

                                                    só em sonhos!

Dorme, amor...

                         Estamos num mundo

que voa enlouquecido

                                    e ameaça explodir,

e é preciso abraçarmo-nos

                                            para não cairmos dele,

e se tivermos que cair,

                                     vamos cair abraçados.

Dorme, amor...

                         Não te deixes encher de raiva.

Que o sonho penetre suavemente nos teus olhos

já que é tão difícil dormir neste mundo.

Mas apesar de tudo

                                 -- ouves-me, amor? --

                                                                     dorme...

E o rumor dos ramos,

                                   e o fragor das ondas,

e o cão na corrente

com toda a sua experiência,

e eu com voz muito branda

                                           e logo num murmúrio

e depois em silêncio

                         dizemos-te ambos: dorme, amor...

 

Ievgueni Ievtuchenko,

Ievtuchenko em Lisboa

(trad: J. Seabra Dinis e

Fernando Assis Pacheco)

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30
Jun 14

A GARÇA-REAL

A garça-real desce sobre as águas de Outono,

          voa sozinha, como um floco de neve,

numa paz completa, num total abandono.

          Pousa depois na margem de areia, ao de leve.

 

Poemas de Li Bai

(versão de António Graça de Abreu)

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