19
Abr 12

SERRA NEVADA

Podeis esquecer a oração

E provar do vinho proibido:

Antes o fogo cruel da danação,

Menos atroz que a Serra Nevada,

Pois consola o pecador arrependido;

Antes as fornalhas do Inferno

Que o agreste de uma tal nortada.

Sem vã soberba daquilo que vos digo

Repetirei o dito do poeta antigo:

Se um dia cair nas penas do Inferno

Isso para mim será quase nada

Desde que aconteça em frio Inverno.

 

Ibn Sara

 

(Adalberto Alves)

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09
Mar 12

...

Honram, por ignorância, o mundo

Os homens, nesta desprezível vida;

Por ele se combatem como cães, que a fundo

Se atiram sobre caça ferida.

 

Ibn Sara

 

(Adalberto Alves)

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09
Fev 12

UM AMOR CASTO

Quantas vezes a amada me veio ver,

Negra era a noite como o seu cabelo.

Junto a mim até ao romper da alva

Tão refulgente como o seu rosto claro.

 

Ficou à minha mesa.

E o nosso puro amor

Serviu de companhia.

 

O vinho turbava a minha alma

Tal como as meninas dos seus olhos.

Mas permaneci casto,

Homem senhor da sua força:

Só tem virtude verdadeira

Quem a si se vence no vigor.

 

Ibn Sara

 

(Adalberto Alves)

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11
Jan 12

...

Os viajantes da noite murmuram o teu nome

E as areias do deserto derramam sobre quem te pisa

O perfume do almíscar.

E na formusura da invocação sabemos da beleza do invocado

Como pelo verdor das margens se pressente o rio.

 

Ibn Sara

 

(Adalberto Alves)

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14
Dez 11

A LAREIRA

Filha da perderneira

Tem brasas nas entranhas,

Estrelas brilhantes em noite escura.

 

Diz-me lá se na verdade

Ela não é alquimista?

Fundiu carvão em lingotes de ouro

De alva prata marchetados.

 

Se o sopro solta o silvo

Ela dança em rubra túnica.

E ao fundir a sua acha

Nesse ouro em lingotes

A aurora simulou

Quando a noite já caía.

 

Se em seu redor tu nos visses

Certamente que dirias:

Ei-los que ali estão bebendo

E passando em seu redor,

De um vermelho alaranjado,

Taças de espesso licor.

 

Ibn Sara

 

(Adalberto Alves)

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21
Nov 11

A BRISA E A CHUVA

Buscas consolo no sopro do vento?

Em sua aragem há perfume e almíscar

Que até ti vem, ataviado de aromas,

Fiel mensageiro da tua doce amada.

 

O ar prova os trajes das nuvens

E escolhe um manto negro.

Uma nuvem prenhe de chuva

Acena ao jardim, saúda-o

Vertendo lágrimas nas risonhas flores.

 

A Terra apressa a nuvem

Para que lhe acabe o manto.

E a nuvem com uma mão

Entretece fios de chuva

E com a outra vai-o enfeitando

Com um bordado a flores.

 

Ibn Sara

(Adalberto Alves)

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31
Out 11

...

Ó noite de festa que de novo

Em minha vida aconteceste

Revivo a memória eterna que em ti existe

E outra vez amável me trouxeste.

E, no entanto, a gente que te olhou

Só viu no teu pálido crescente

Um ser emagrecido e triste...

 

Ibn Harun

 

(Adalberto Alves)

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23
Set 11

...

A vida de tudo quanto vive
          é penhor do Nada.
O mundo que agora une
          é o que amanhã apartará.
A vida dá-nos o Hoje para nos aproximar
          e a Eternidade para a separação.
Possui acaso o rei o mistério da morte?
O seu poder contraria o transe do destino?
Não é isso que vejo!
A morte desfaz o que a união congrega:
Ó colinas vestidas de evanescentes mantos
Ó vida aniquiladas com brutal furor
Ó almas atingidas de insanável mal,
Não sabeis que suas mãos profanam os haréns,
Os mais nobres príncipes e as suas damas?
Que ela é o mal que abate o monarca
Com golpe fero que atrai a compaixão?
Que contra ela os elementos não são armas
Nem as lágrimas lhe dão sequer remédio?
Logro contra ela é o recurso dos suspiros!
Logro contra ela é o socorro do pranto!
Como pôr fim a um mal com outro mal?
Como tratar a dor com outra dor?

Ibn Darraj al-Qastalli

(Adalberto Alves)
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05
Set 11

...

Tivemos,
Em vez de uma longa vida de doçura
A travessia de vales e montes lamacentos;
Em vez de noites breves sob os véus
O temor da viagem no seio de infindável treva;
Em vez de água límpida sob sombras
O fogo das entranhas queimadas pela sede;
Em vez do perfume errante das flores
O hálito esbraseado do meio-dia;
Em vez da intimidade entre ama e amiga
A rota noctura cercada de lobos e de génios;
Em vez do espectáculo dum rosto gracioso
Desgraças suportadas com nobre constância.

Ibn Darraj Al-Qastalli
(Adalberto Alves)
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14
Jul 11

...

Olha essas flores. São, assim
Regadas pela dádiva da chuva,
Como que estrelas num céu de jardim
Devagar tombando uma a uma.

Furtivamente querendo escutar
Dir-se-ia que um génio de espuma
Procurou saber o seu segredo
E se desfolharam para o castigar.
E eis que a mão da brisa em seu enredo
Sobre o inquieto dorso do arroio
Caprichou em bolhinhas de enfeitar.

Ibn Al-A'lam As-Santamari

(Adalberto Alves)
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