27
Jun 11

LUZ RECENTE

Respiras com cautela a luz
recente.
Deve ter acordado: canta.
Anos e anos a luz adormecida
no fundo da pupila.
Já nem te lembravas
que fora assim tão jovem
e tinha
o nome da alegria.
Agora canta. Canta
em surdina.

Eugénio de Andrade
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30
Abr 11

Primeiros Poemas / As Mãos e os Frutos / Os Amantes sem Dinheiro

autor: Eugénio de Andrade (Póvoa da Atalaia, Fundão, 19.I.1923 -- Porto, 13.VI.2005)
título: Primeiros Poemas / As Mãos e os Frutos / Os Amantes sem Dinheiro
colecção: «Obra de Eugénio de Andrade» #1
edição: 1.ª conjunta; 8.ª, 14.ª e 13.ª, respectivamente
editora: Fundação Eugénio de Andrade
local: Porto
ano: 1993
págs. 104
dimensões: 20,1x12,8x0,7 cm. (brochado)
capa: Armando Alves
impressão: Helvética -- Artes Gráficas, Gondomar
obs.: desenho de Ângelo de Sousa; retrato do autor por Júlio Pomar, 1953; nas badanas, excertos de apreciações de Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, António Ramos Rosa e Eduardo Lourenço.
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07
Jan 11

LUGAR DO SOL

Há um lugar na mesa onde a luz
Abdicou do seu ofício.
Já foi o sol
e do trigo esse lugar -- agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: «Não sujes
a toalha»; «Não comes a maçã?»
Também já não há quem se debruce
Na janela para sentir
O corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 17:10 | comentar | favorito
23
Dez 10

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 22:46 | comentar | favorito
18
Dez 10

A UMA FONTE

Fonte pura, fonte fria...
(Onde vais, minha canção?)
Fonte pura..., assim queria
que fosse meu coração:
fluir na noite e no dia
sem se desprender do chão.

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 18:23 | comentar | favorito
23
Nov 10

VEGETALMENTE SÓ

É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o meu rosto antigo,
sem lágrimas sepultadas nos lábios,
sem nenhuma criança acordada
nas pálpebras pesadas.

Deixa-me só, vegetalmente só,
correndo como um rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 17:11 | comentar | favorito
04
Nov 10

ELEGIA DE SETEMBRO

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos poisados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se recordam os mortos, sem os ferir
sem os trazer a esta espuma negra
onde os corpos e corpos se repetem
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada olhando as rosas
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade 
publicado por RAA às 11:51 | comentar | favorito
23
Set 10

CANÇÃO DE LEONORETA

Borboleta, borboleta,
flor do ar,
onde vais, que me não levas?
Onde vais tu, Leonoreta?

Vou ao rio, e tenho pressa,
não te ponhas no caminho.
Vou ver o jacarandá,
que já deve estar florido.

Leonoreta, Leonoreta,
que me não levas contigo.

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 16:58 | comentar | favorito
12
Ago 10

ACORDE

Onde passou o vento
são altas as ervas,
e os olhos água
só de olhar para elas.

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 11:51 | comentar | favorito
22
Fev 10

NOITE TRANSFIGURADA

Criança adormecida, ó minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
-- chegaste,
nem eu sei de que horizontes.

Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
-- ó minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.

Chegaste, noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que respiramos,
nítida no ângulo das esquinas
-- ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.

Eugénio de Andrade
publicado por RAA às 22:41 | comentar | favorito