06
Jun 13

"Escrever, tecer um anel"

Escrever, tecer um anel

em redor das coisas

A tinta prolonga

o sangue

consome o saber das sílabas

 

Com um pé na norma

e outro na errância

navego no coração do vento

 

Respiro no milagre

dos gestos ínfimos e graves

 

Faço de espanto

a regra e o sinal

 

Talvez adormeça

encostado ao azul

na mais pura ignorância da morte

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da Tinta

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12
Jul 11

CADERNO

As linhas das mãos
prolongam os veios (dos campos).
Alguém recolhe as últimas estrelas
(no outro lado do coração).
Nenhum agravo ou ferida.
Apenas um caderno aberto
ante o assombro da escrita.

Fernando Jorge Fabião
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05
Fev 11

...

Às vezes apetece
um pequeno pátio      um sibilar de vento
e aroma de mar
apetece um sulco de giz
no rosto do poema
um laço
uma ponte entre o clamor do vento
e a haste do mundo

às vezes apetece
um mapa
um gesto camponês
lavrando a solidão incendiando a terra

apetece um ofício puro
uma estrela ardida no lugar do coração.

Fernando Jorge Fabião
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30
Jan 11

...

Principio a escrever
e letra a letra construo uma casa
leve e obscura como um poema

Escrevo como quem da mágoa
se despede e é outra cor

O espanto inunda as mãos (aves sem peso)
e uma canção antiga
nasce no interior das sílabas

Um saber precário consome a minha voz
Um pedaço do mar
Um véu rasgado

Olho devagar os rostos
(luz matinal)
e à volta dos lugares
desenho um arco de orvalho e mel.

Fernando Jorge Fabião
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22
Dez 10

TÍLIAS

Recolheu os manuscritos.
Contou as tílias, a promessa
das cores. Emudeceu.
Nada alterou a sombra amável
nem a dignidade do olhar.
O ramo da escrita: luz surda
respiração
puro tacto.
Louvor mudo.

Fernando Jorge Fabião
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21
Out 10

...

Se um dia a sede
de uns lábios desarmados
ou o veneno alastrar

e as crianças, amando o pão,
respirarem

Talvez o declinar da sombra
na face amada
ou um gesto
desenhado contra o vento

ensinem

o esquecido ofício
da alegria.

Fernando Jorge Fabião
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29
Set 10

...

Eu poderia dar o passo
que o súbito ar
separa

e arder
no círculo imenso da água.

Eu poderia
dar à voz
o uso próprio de um verso,

partilhar o que me falta
no país difícil
de um adeus.

Fernando Jorge Fabião
publicado por RAA às 14:20 | comentar | favorito
13
Set 10

...

quando tudo é outra coisa
peixe ou nuvem
quando tudo é fulgor
rebentação do verde nos teus olhos
quando a alegria contamina a pele
e a casa é um navio transparente
e numa sílaba
ouso imaginar-te enternecendo as aves

é que levo ao poema
a brancura matinal da infância
ou, quem sabe
o nome exacto de Deus.

Fernando Jorge Fabião

publicado por RAA às 20:20 | comentar | favorito
07
Set 10

...

Não sei de outra medida
de outra minúcia de outro olhar

Não sei de outra voz
reclinada na linguagem do ar
ou na cegueira de um astro

Não sei de outra escassez
ou sabor
sem a cal de um ombro. Não sei.

Fernando Jorge Fabião
publicado por RAA às 12:25 | comentar | favorito
31
Jul 10

Nascente da Sede

autor: Fernando Jorge Fabião
título: Nascente da Sede
edição: 1.ª
colecção: «Imagem do Corpo» #72
editora: Ulmeiro
local: Lisboa
ano: 2000
capa: César Fidalgo
págs.: 98
dimensões: 20,5x14,7x0,6 (brochado)
tipografia: Garrido & Lino (Alpiarça)
obs.: Prémio Revelação Ary dos Santos, 1999 (Câmara Municipal de Grândola); dedicatória do Autor
publicado por RAA às 16:34 | comentar | favorito