18
Jan 11

MY HEART IS SAIR FOR SOMEBODY...

Trago inquieto o coração
por alguém, que nem eu sei...
Quisera perder as noites
     a pensar n'alguém,
     por amor d'alguém,
     ai, por amor d'alguém!
Ir-me por todo esse mundo
     por amor d'alguém!

Santos ao amor fagueiros,
sorri docemente a alguém!
Livrai-o de todo o p'rigo;
     e dai-me esse alguém,
     trazei-me esse alguém,
     ai, trazei-me esse alguém!
Que eu... -- que não farei eu
     por amor d'alguém?

Robert Burns

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 16:46 | comentar | ver comentários (2) | favorito
12
Jan 11

I LOVE MY JEAN

Anda alegria no vento
sempre que vem do sol-pôr:
lá onde vive a serrana
que me enfeitiçou d'amor...
Lá nos montes, pelas fontes,
pelos pinhais, vai sòzinha...
A cada momento, o vento
me faz lembrar -- Joaninha!

Vejo-a nas florinhas tenras,
que dá graça de as olhar;
ouço-a no trilo das aves
que pões bruxedo no ar:
a papoila que floresce
por entre a messe ou na vinha,
o rouxinol que gorjeia,
só me dizem -- Joaninha!

Robert Burns

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 11:27 | comentar | favorito
04
Jan 11

...

Pode lá ser! Há três dias
que me abrasa esta paixão!
E vai durar outros tantos,
sendo a maré de feição...

Bem pode o Tempo voar
que não descobre um amante,
na redondeza da terra,
tão afincado e constante!

E nem mereço louvor:
como a ideia me arrepela!...
Pois onde iam já meus olhos
se outra fora que não ela?

Se outra fora que não ela,
com seu palminho de rosto,
já doze dúzias -- nem menos! --
tinham tomado o seu posto...

John Suckling

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 14:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
22
Dez 10

...

Porque pálido e triste, meu rapaz?
     Dize: porque tão pálido?
Ou, quando um ar jocundo não lhe apraz,
     um ar triste -- é mais cálido?...
     Dize: porque tão pálido?

Porque silente e mudo, pobre jovem?
     Dize: porque silente?
Ou, quando meigas falas a não movem,
     ser mudo -- é eloquente?...
     Dize: porque silente?

Vamos, vamos!... Juízo! O teu penar
     que pode ter, que enleve?
Se por si mesma te não quer amar,
     mais fria do que a neve...
     -- o demónio que a leve!

John Suckling


(Luís Cardim)
publicado por RAA às 17:21 | comentar | favorito
09
Dez 10

...

O casamento de almas de eleição,
nada o embarga. Nunca foi amor
o que vacila posto em provação,
ou se bandeia ao próprio destrutor.

Ah, não! O amor é um sinal constante,
encara as tempestades sem tremer:
a Tramontana desta nau errante,
cuja «altura» nos salva -- ou faz perder.

Não teme, ó Tempo, a tua foice adunca:
róseas faces e lábios, esses sim;
não muda em horas, dias, meses, -- nunca! --
teima e perdura até ao fim do fim...

E se por falso rumo agora vou,
-- jamais poetei! jamais alguém amou!

Shakespeare

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 23:59 | comentar | favorito
14
Nov 10

...

Ah! não chores por mim  quando eu morrer,
quando o plangente sino magoado
disser ao mundo vil que, fatigado,
com vilíssimos vermes fui viver.

Lendo estas linhas, deves esquecer
a mão saudosa que lhes deu traslado:
que o bem de perdurar num peito amado
em mal se torna quando o faz sofrer.

Não, se vires esta rima dolorida
quando a terra em seus braços me retome,
que finde o teu amor co'a minha vida,
e nem recordes o meu próprio nome!

Pois se o mundo te vê na dor absorto,
inda zomba de mim depois de morto.

William Shakespeare

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 20:12 | comentar | ver comentários (2) | favorito
03
Out 10

...

Quando ao foro subtil do pensamento
eu convoco as memórias desta vida
cheia de sonhos vãos e, revivida,
a velha dor se faz novo tormento;

Então meus olhos baços, num momento,
a mil frontes amigas dão guarida:
volto a sofrer a mágoa já cumprida,
volto a chorar os mortos que avivento...

Então meus olhos duros embrandecem,
passo de pena em pena, e vou somando
a triste soma dos que não me esquecem,
e da noite sem fim me estão fitando:

Mas se entretanto me lembrar de ti,
perdas não tive, mágoas não sofri.

William Shakespeare

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 15:58 | comentar | favorito
18
Set 10

...

Com que passadas tristes vais subindo
ó lua, e tão silente, e desmaiada!
Pois quê?! Também na célica morada
anda o Archeiro as setas despedindo?

Se uns olhos que ele abrasa há tempo infindo
conhecem já quem lhe caiu na alçada,
nesse teu ar e graça abandonada
leio que também tu o vens servindo.

Dize, então, companheira, e doce amante:
também lá é loucura o amor constante?
As deusas, desdenhosas também são?

Também movem amor, e zombam logo
dos corações que amor acende em fogo?
Também lá é virtude a ingratidão?

Sir Philip Sidney

(Luís Cardim)
publicado por RAA às 20:06 | comentar | favorito
16
Ago 10

THE GRAVE

Já tinhas pronta uma casa
inda estavas por nascer;
não é alta nem folgada,
mal te podes estender;
o tecto não se alevanta,
fica em cima do teu peito;
é à justa o comprimento
por tua medida feito;
as paredes são de terra
talhadinha com cautela;
não tem postigo nem porta
nem poderás sair dela;
chamas pelos teus amigos,
nenhum quedou a teu lado;
ninguém virá de mansinho
ver se dormes descansado:
pois só os vermes, aí
na pousada negra e fria,
não terão nojo de ti
e te farão companhia.

Anónimo (Século XIII)
(Luís Cardim)
publicado por RAA às 22:41 | comentar | favorito