11
Dez 11

NATAL DE POBRES

Quando a mulher adormeceu

naquela noite de Natal,

o homem foi, pé ante pé,

pôr um sapato (dela, não seu)

com um embrulho de jornal

na lareirinha da chaminé.

 

Um casal pobre... um ano mau...

Era um pedaço de bacalhau.

 

Ora alta noite, pela janela,

com fome e frio, entrou um gato

que, no escuro, cheirando aquela

comida boa no sapato,

rasgou o embrulho, comeu, comeu

e, quente e farto, adormeceu.

 

De manhã cedo, ela acordou,

foi à cozinha e viu o gatinho

adormecido no seu sapato.

Voltando ao quarto, feliz, falou

para o seu homem: -- Meu amorzinho,

como soubeste que eu queria um gato? 

 

Leonel Neves

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26
Jun 11

Fábulas

autor: Curvo Semedo (Montemor-o-Novo, 1766 - Lisboa, 1838)
título: Fábulas
prefácio: H. Zeferino de Albuquerque
colecção: Livros de Bolso Europa-América #395
editora: Publicações Europa-América
local: Mem Martins
ano: s. d.
págs.: 167
dimensões: 17,9x11,4x0,9 cm. (brochado)
impressão: Gráfica Europam, Mira-Sintra
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22
Mai 11

ERA UMA VEZ...

À noite para adormecer
O lobinho na floresta,
A mãe loba conta histórias
E outro dia contou esta
O Capuchinho Vermelho
Certo dia, indo só
Atravessou a floresta
P'ra ir visitar a avó
Entreteve-se a falar
Com uns bichos brincalhões
Apareceu um grande lobo
E viu-se em complicações
E a mãe loba terminou
A história já conhecida
Em que o lobo por ser mau
Com um tiro perde a vida
Assustadinho a valer
Diz que já não quer crescer
Deitadinho ao pé da mãe
É que o lobinho está bem.

Isabel Lamas
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20
Mai 11

O CORVO

-- Quê? quê? quê?...
-- Nada.

Jules Renard
(Jorge de Sena)
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05
Mai 11

A BALEIA

Tem na boca barbas de sobra para fazer um espartilho. Mas com aquela
                                                                                                   [cintura!...
Jules Renard

(Jorge de Sena)
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21
Abr 11

LULLABY

Passarinho pequenino,
que dizes tu, tão cedinho?
Quero voar, minha mãe,
quero voar deste ninho...
Passarinho, passarinho,
     -- meu tontinho! --
Deixa as penas crescer bem,
logo no ar te sustém...

Bebèzinho pequenino,
que palras tu, tão cedinho?
Quero correr, minha mãe,
voar como o passarinho...
Bebèzinho, bebèzinho,
     -- meu tontinho!
Dorme um pouco mais, meu bem...
Cedo voarás, também...

Tennyson

(Luís Cardim)
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15
Abr 11

O PIRILAMPO

Que se passa? Nove horas da noite, e há luz ainda em casa dele?

Jules Renard

(Jorge de Sena)
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05
Abr 11

A ARANHA

Uma pequenina mão negra e peluda crispada em cabelos.
Toda a noite, em nome da lua, apõe os seus selos.

Jules Renard

(Jorge de Sena)
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06
Mar 11

REGIME ALIMENTAR

Há animais herbívoros,
há plantas carnívoras
e há pessoas pagívoras.
Como...?! Como...?!
Comem de entrada um acepipe:
um livro fresco de poemas.
Depois como prato principal,
um dicionário bem recheado.
E, à sobremesa, um livro infantil ilustrado.
Este regime alimentar, à base de massa
folhada e paginada, é bastante salutar:
não há registo de pagívoros enfartados ou adoentados.

Teresa Guedes
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24
Jan 11

(VERSOS A UMA CABRINHA QUE EU TIVE)

Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.

Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.

Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.

De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.

Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.

E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado.

Vitorino Nemésio
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