16
Jul 12

NO ANIVERSÁRIO DA PAZ

Musa da guerra, que alegrias cantas?

Quem ergue e agita as triunfantes palmas,

Se um espasmo de dor prende as gargantas

E a treva ensombra os corações e as almas?

 

Ainda a vitória não desceu à terra...

Ainda, ainda é um falso nome...

Mas se deliu um torvo espectro -- a guerra,

Aumentou logo o velho espectro -- a fome.

 

Amorteceu o pávido estampido

Das vozes dos canhões, repercutentes,

Mas enche o mundo inteiro outro ruído:

-- Milhões de bocas a ranger os dentes!

 

Há nos tratados expressões de paz,

Mas interroga e brada a multidão:

Que bem nos veio dela? O que nos traz,

Se não nos deu contentamento e pão?

 

Augusto Gil

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16
Fev 12

...

A que morreu às portas de Madrid,

Com uma praga na boca

E a espingarda na mão,

Teve a sorte que quis,

Teve o fim que escolheu.

Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.

E antes de flor, foi, como tantas, pomo.

Ninguém a virgindade lhe roubou

Depois dum saque -- antes a deu

A quem lha desejou,

Na lama dum reduto,

Sem náusea mas sem cio,

Sob a manta comum,

A pretexto do frio.

Não quis na retaguarda aligeirar,

Entre «champagne», aos generais senis,

As horas de lazer.

Não quis, activa e boa, tricotar

Agasalhos pueris,

No sossego dum lar.

Não sonhou minorar,

Num heroísmo branco,

De bicho de hospital,

A aflição dos aflitos.

 

Uma noite, às portas de Madrid,

Com uma praga na boca

E a espingarda na mão,

À hora tal, atacou e morreu.

 

Teve a sorte que quis.

Teve o fim que escolheu.

 

Reinaldo Ferreira 

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19
Ago 11

...

Meu senhor arcebispo, and' eu escomungado,
porque fiz lealdade; enganou-m'i o pecado.
        Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria;
mais, pois fiz lealdade, vel  por Santa Maria,
        Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per mha malaventura tive um castelo em Sousa
e dei-o a seu don', e tenho que fiz gran cousa:
        Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per meus negros pecados, tive um castelo forte
e dei-o a seu don', e ei medo da morte.
        Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Diego Pezelho
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28
Mar 11

...

De um Trácio é agora o meu belo escudo.
Que havia eu de fazer? Perdi-o na floresta-
Mas salvei a minha pele, no aceso da luta.
Sei bem onde comprar um escudo novo.

Arquíloco

(Jorge de Sena)
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03
Jan 11

QUATRO MESES E UMA VIAGEM

1

                    S. João de Loure -- pequeno monólogo sobre a ruína

em fevereiro corre um rio

é um rio menino
o desenho na argila
ou antes
o mês na boca da noite
uma lâmina sobre o país

em fevereiro corre um rio

digo: «é o receio da pedra
o sono viscoso da vinha
na encosta a dor da faca»

em fevereiro corre um rio

digo: «é a saliva da guerra
a memória inquieta a palavra
de chumbo a explosão da casa»

António Manuel Lopes Dias
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17
Dez 10

ÁFRICA

V

Reflectiu o arco-íris
as suas tonalidades múltiplas
sobre as pétalas virginais;
do fundo da terra
subiu até elas o perfume quente
das essências.

E logo foi rubra e ardente
a rosa tropical,
pálida a magnólia,
solene o cravo.

Nelas buscaram cor
as mariposas
e encheram as suas taças
os besouros;
nelas o Poeta e a abelha
encontraram a mais requintada doçura.

Brancas, verdes ou amarelas,
amo-as a todas
na sua pluralidade colorida,
na sua fragilidade perfumada.

Azuis, vermelhas ou roxas,
amo-as a todas
e peço-as
para os meus mortos
passados e futuros,
mortos da terra e do mar,
da escravidão e da liberdade,
peço flores para as novas bandeiras de África
que eu vejo desabrocharem no horizonte.

Manuel Lima
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29
Nov 10

O MENINO DE SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
-- Duas, de lado a lado --,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa
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11
Nov 10

THE BOMBS

There are no more words to be said
All we have left are the bombs
Which burst out of our head
All that is left are the bombs
Which suck out the last of our blood
All we have left are the bombs
Which polish the skulls of the dead

February 2003


Harold Pinter
publicado por RAA às 19:53 | comentar | favorito
03
Nov 10

O ÚLTIMO ADEUS DUM COMBATENTE

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!

Vasco Cabral
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03
Set 10

PANORAMA

Ao longe
na distância da manhã por vir,
na indecisão das camuflagens
e do rumor da guerra,
há agonias esbatidas no negro-fumo
da pólvora
dos homens que se batem.
Aquém, é a luta na retaguarda!

Às dores que nos campos de batalha
o golpe de misericórdia é dado
pela metralha,
correspondem nas fileiras de trás
ansiedades intérminas de almas
e lutas maiores...
Há evacuações despedidas, alarmes,
e notícias de comboios torpedeados.
Há a guerra dos nervos destrambelhados:
A guerra que ficou em nós
das notícias de guerra!
E há noites incalmas
de almas
que escrevem poemas
aos poemas dos nossos nervos em guerra.

E fica-nos a certeza
de que há um «front» em toda a gente.
A leste, ao sul, no espaço.
Em nós
há guerra. -- Aqui e além.

Guilherme Rocheteau
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