25
Jul 13

MARCHA QUASE FÚNEBRE

Silencioso e tranquilo

Como um rastro de desgraça,

No outro lado da praça,

O lento cortejo passa

Das meninas do asilo.

 

São todas órfãs? -- Pior:

São todas tristes e feias.

Saias pretas, grossas meias...

Corre-lhes sangue nas veias

Por milagre do Senhor.

 

Que fazem durante o dia?

-- Aprendem a soletrar.

A coser... E o sol? E o ar?

Quando pensam em lhes dar

Uma lição de alegria?

 

Carlos Queirós,

Desaparecido

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28
Jun 13

LEGENDA

Toda a gente dizia que ele havia

De ser, nesta vida, alguém;

E a mãe ouvia e sorria,

Contente de ser a mãe.

 

O menino cresceu; é hoje um homem;

E, embora por alguém o tomem,

Quando o vêem passar, dizem: -- Coitado!

É um poeta... (um aleijado).

 

Carlos Queirós,

Desaparecido

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13
Jan 13

SONETO

De ti não quero mais do que a memória

Das breves horas idas que me deste,

Como a palma, depois duma vitória...

-- E nada mais dessa vitória reste.

 

De neblina um luar frio reveste

O meu passado: a infância foi-me inglória;

E dela não ficou mais do que a história

Dum menino, uma fada e um cipreste.

 

Não mais serei contigo neste vário

Campo, sonhando, em vaga liquescência...

Luz coada através dum aquário.

 

(Entanto, a serra tem a consciência

Do meu passar por ela solitário,

Como outrora, na minha adolescência).

 

Carlos Queirós

presença #16, 1928

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07
Ago 12

SONETO

Num veleiro chegou aquele dia

Do teu adeus e lágrimas no cais

De há muitos anos: Sim, há muitos mais,

-- Quando, talvez, nem mesmo cais havia...

Tu eras minha, lembras-te? e chovia;

Mas não em nós: somente sobre o arrais

De oleado vestido... vendavais

Uma aragem do norte prometia.

Que nuvem tão cerrada de gaivotas

Tanto tempo de ti me separou!

Que alegria que foi as velas rotas

Quando perto do porto a nau parou!

Que estranhas e fantásticas derrotas

Alguém, batendo à porta, malogrou!

 

Carlos Queirós

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31
Ago 11

NA CIDADE NASCI

Na cidade, quem olha para o céu?
É preciso que passe o avião...
Quem me dera o silêncio, a solidão,
Onde pudesse, alguma vez, ser eu!

Na cidade nasci; nela nasceu
A minha dispersiva inquietação;
E o meu tumultuoso coração
Tem o pulsar caótico do seu.

Ah! Quem me dera, em vez de gasolina,
O cheiro da terra húmida, a resina
A flores do campo, a leite, a maresia!

Em vez da fria luz que me alumia,
O luar, sobre o mar, em tremulina...
-- Divina mão compondo uma poesia.

Carlos Queirós
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11
Jun 11

EN BATEAU

Um violino geme
Em um barco singrando
No meu sonho tão brando
Como a curva do leme.

Prolonga-lhe a derrota,
De leve espuma um rastro;
E no topo do mastro
Leva uma gaivota...

Mas p'lo fio de espuma
Onde a noite se enreda,
Em um bicho de seda
No meu sonho se esfuma.

E eu acordo pensando
Em como se parece
Minha vida com esse
Leve barco singrando.

Carlos Queirós
publicado por RAA às 15:35 | comentar | favorito
19
Abr 11

ADAGIO

Repouso a minha fronte
Dorida no teu peito:
E o meu bem-estar é feito
De não ter horizonte.

Nela sentindo, leve,
A tua mão passando,
Fico entressonhando
O derreter da neve...

Que translúcido vago
Meu suave esquecer
No teu último afago...
-- O meu anoitecer.

Nada hoje me peça
O teu querer-me : deixa
Que tão breve adormeça
Como a tarde se fecha.

Carlos Queirós
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07
Fev 11

ADAGIO CANTABILE

O cego deu à manivela
Da velha e triste pianola
Que era a alegria da vila:
Mas já ninguém vem à janela...
-- Pois vindo davam-lhe esmola
E ocultos podem ouvi-la.

Carlos Queirós
publicado por RAA às 23:44 | comentar | favorito
16
Nov 10

DESAPARECIDO

Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
-- Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Eu, o feliz desapar'cido!

Carlos Queirós
publicado por RAA às 23:19 | comentar | favorito
15
Nov 10

QUATRO POEMAS DO RETARDADOR (4)

A bilha de barro berra
Nesta paisagem parada,
Agudos gritos de guerra:
Que assombram na suave serra
A verdura repousada.

Cantando passa e não pensa,
Dolente, a moça que a leva;
-- Mas breve a sombra se adensa
E lhe dilui a presença
Torva, na tinta da treva.

Carlos Queirós
publicado por RAA às 23:49 | comentar | favorito