28
Jan 11

CASA DE BONECAS

Viam-se do quarto n.º 405
e pareciam,
à primeira vista, gente.
Mas não; eram apenas bonecas
a tomar diariamente chá
numa mesa colorida pelo desespero.

A única pessoa, já velha, era
a que veio pôr a secar
umas largas cuecas brancas,
em perfeito contraste
com o tule rosado das bonecas.

Manuel de Freitas
publicado por RAA às 16:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
13
Set 10

COIN, 1994

Gostava de poder dizer não
ao ruído do mundo.
Mas já recolhem o lixo, choveu demasiado,
e eu aperto sem convicção
o cinto verde que me cala o estômago.

Estaríamos, até, a falar da morte
-- não fosse este o vigésimo
domingo a seguir à Trindade.
Tronos e dominações mo dizem,
numa rua de Lisboa que
fica, às vezes, tão perto de Leipzig.

Não abdicarei, é claro,
«dos escuros abismos do pecado»
-- que em alemão se dizem doutra maneira.

Pecado, maior, é tentar traduzir a música.

Manuel de Freitas
publicado por RAA às 23:48 | comentar | favorito
12
Jul 10

NO SMOKING

Hoje não avançámos muito no silêncio
-- o café lento, um sorriso esquartejado
de pé no balcão de zinco.
Pouco mais, terá de convir.
Um gesto de quem não pode
e espera o desastre, qualquer salvação
dessas, para que seja menos visível
a repressão de um cigarro
ou o açoite do tempo no rosto.
Só não quero falar de literatura,
por amor de um deus qualquer.

Foi disso que falámos, não sei se por pânico
apenas. É tudo tão indesculpável: o corpo
encostado assim à demora de um café,
as palavras que quase foram, quase
puderam -- modo de carícia inútil
que deixei ali para que entendesse ou não
a medida exacta de uma treva minha.

Voltei a vê-la, depois, roubada
por um sonho idiota -- coisa
inenarrável em volta de livros
e de igrejas barrocas com elevador central.

Mas também aí não avançámos muito.
E o silêncio existe, pelo menos este.

Manuel de Freitas
publicado por RAA às 14:57 | comentar | favorito