A DUQUESA DE BRABANTE

Tem um leque de plumas gloriosas,

Na sua mão macia e cintilante,

De anéis de pedras finas preciosas

A Senhora Duquesa de Brabante.

 

Numa cadeira de espaldar doirado,

Escuta os galanteios dos barões.

-- É noite: e, sob o azul morno e calado,

Concebem, os jasmins e os corações.

 

Recorda o senhor Bispo acções passadas.

Falam damas de jóias e cetins.

Tratam barões de festas e caçadas

À moda goda: -- aos toques dos clarins,

 

Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa

Vela seu rosto de um solene véu.

-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...

-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

 

Dizem as lendas que Satã, vestido

De uma armadura feita de um brilhante,

Ousou falar do seu amor florido

À Senhora Duquesa de Brabante.

 

Dizem que o ouviram ao luar nas águas,

Mais loiro do que o sol, marmóreo, e lindo,

Tirar de uma viola estranhas mágoas,

Pelas noites que os cravos vêm abrindo...

 

Dizem mais que na seda das varetas

Do seu leque ducal de mil matizes...

Satã cantara as suas tranças pretas,

-- E os seus olhos mais fundos que as raízes!

 

Mas a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa

Vela no seu rosto de um solene véu.

-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...

-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

 

O que é certo é que a pálida Senhora,

A transcendente Dama de Brabante,

Tem um filho horroroso... e de quem cora

O pai, no escuro, passeando errante.

 

É um filho horroroso e jamais visto! --

Raquítico, enfezado, excepcional,

Todo disforme, excêntrico, malquisto,

-- Pêlos de fera, e uivos de animal!

 

Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,

Aborto e horror da brava Natureza...

-- Em vão tentam barões, com mil discursos,

Desenrugar a fronte da Duquesa.

 

Sempre a Duquesa é triste. -- Oculta mágoa

Vela seu rosto de um solene véu.

-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...

-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

 

Ora o monstro morreu. -- Pelas arcadas

Do palácio retinem festas, hinos.

Riem nobres, vilões, pelas estradas.

O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...

 

Riem-se os monges pelo claustro antigo.

Riem vilões trigueiros pelas charruas.

Riem-se os padres, junto ao seu jazigo.

Riem-se nobres e peões nas ruas.

 

Riem aias, barões, erguendo os braços.

Riem, nos pátios, os truões também.

Passeia o duque, rindo, nos terraços.

-- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...

 

Só, sobre o esquife do disforme morto,

Chora, sem trégua, a mísera mulher.

Chama os nomes mais ternos ao aborto...

-- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!

 

Só ela chora pelo morto!... A mágoa

Lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!

-- Ao luar, sobre os tanques chora a água...

-- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

 

Gomes Leal,

in Edoi Lelia Doura --

Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa

(edição de Herberto Helder, 1985)

publicado por RAA às 23:07 | comentar | favorito