CHAMA E FUMO

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

Medita no que vais fazer:

O fumo vem, a chama passa...

 

Gozo cruel, ventura escassa,

Dono do meu e do teu ser,

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

Tanto ele queima! -- e, por desgraça,

Queimado o que melhor houver,

O fumo vem, a chama passa...

 

Paixão puríssima ou devassa,

Triste ou feliz, pena ou prazer,

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

A cada par que a aurora enlaça,

Como é pungente o entardecer!

O fumo vem, a chama passa...

 

Antes, todo ele é gosto e graça.

Amor, fogueira linda a arder!

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

Porquanto, mal se satisfaça,

(Como te poderei dizer?...)

O fumo vem, a chama passa...

 

A chama queima. O fumo embaça.

Tão triste que é! Mas, tem de ser...

Amor?... -- chama, e, depois, fumaça:

O fumo vem, a chama passa...

 

 

Teresópolis, 1911.

 

Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira

(edição de Francisco de Assis Barbosa)

publicado por RAA às 02:34 | comentar | favorito