CREPÚSCULO

Nas horas paradas, indecisas

em que os olhos olham

a mesma cor no mundo

e, um ténue claridade se suspende

no céu, entre o Sol e as estrelas...

no compasso de espera,

ainda dia e não sei se noite,

é que acorda o nosso coração.

 

E tange

a mesma canção amarga,

que vem das árvores,

dos pássaros, da gente

e onde a síncope da noite

colhe um a um todos os gestos.

 

Deixou de brilhar a água

translúcida do lago.

A árvore sustém na copa de sombra

os ramos que apenas sabem que vacilam.

Os pássaros são pios

gravados na memória

e em redor.

 

Percebem-se ainda os passos

da mulher que desce a rua.

O resto, é um traço vago

desenhado em reflexos baços

na penumbra.

 

Tudo se retrai e assusta

como num princípio de Vida.

 

Somos crianças e vamos

levadas por um destino comum

de sombras informes.

Mistério que somos

de nada e além

em agigantadas perspectivas de Morte

confundindo-se no mármore frio

de místicos temores...

 

...E a Vida continua.

Serena se levanta

do fundo da memória

nos ramos que se agitam,

nos pássaros que voam.

E balbucia e traça e canta

a mensagem futura

para embalar o dia que vem

na aurora distante.

 

Alexandre Dáskalos, Poesia (1961)

publicado por RAA às 13:01 | comentar | favorito