OS VELHOS

já antevejo as ruas

engolidas por praças

donde se adivinha o mar

uma brisa a debater-se

contra o nevoeiro do entardecer

e uns velhos a soletrar

os prestígios de uma estirpe

a que nunca pertenceram,

até que se calam

e ficam a olhar o molhe

com os olhos rasos de água,

as mãos, essas,

há muito que estão cobertas

por uma sombra~e é por isso que não as mexem,

como se estivessem embrulhadas

num lençol de nostalgia

ou simplesmente de lama

ou mesmo de merda.

 

Manuel Afonso Costa, Memórias da Casa da China e de Outras Visitas (2017)

publicado por RAA às 01:55 | comentar | favorito (1)