15
Dez 17

PERSISTÊNCIA

Desmembrado, o corpo. Apenas um rosto,

a imobilidade larvar da carne

e o silêncio só excedido pelo livor

que, sobre as feições, vai baixando,

sem doçura, nem misericórida.

 

Cerrados, os lábios configuram

a nudez próxima da maxila.

O sangue é já pó na poeira gretada

e o riso claro dos deuses,

que a brisa ligeira arrasta,

 

dissolve-se na frágil memória

da erva. Pela noite dentro,

na pausa lenta que perdura,

insinuante, sílaba a sílaba,

pertinaz instala-se o canto.

 

Rui Knopfli, O Corpo de Athena (1984)

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18
Set 16

CANTO PENINSULAR

Estar aqui dói-me. E eu estou aqui

há novecentos anos. Não cresci nem mudei.

Apodreci.

Doem-me as próprias raízes que criei.

 

Foi a guerra e a paz. E veio o sol. Veio e passou

a tempestade.

Muita coisa mudou. Só não mudou

este monstro que tem a minha idade.

 

E foi de novo a guerra e a paz. Muita coisa mudou

em novecentos anos.

Eu é que não mudei. Neste monstro que sou

só os olhos ainda são humanos.

 

Quantas vezes gritei e não me ouviram

quantas vezes morri e me deixaram

nos campos de batalha onde depois floriram

flores e pão que do meu sangue se criaram.

 

Andei de terra em terra

por esse mundo que de certo modo descobri.

E fui soldado contra a minha própria guerra

eu que fui pelo mundo e nunca saí daqui.

 

Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.

Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome.

Eis-me tal como sou há novecentos anos

eu que não sei escrever sequer o meu próprio nome.

 

Falam de mim e dizem: é um herói.

(Não sei se por estar morto ou porque ainda não morri)

Mas nunca ninguém disse a razão por que me dói

estar aqui.

 

Manuel Alegre, Praça da Canção  (1965)

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02
Ago 12

OS MORTOS PERGUNTAM

Nos rumos perdidos dos ventos trocados

       Todos os rumos,

Nos fumos das piras dos mortos cremados

Todos os fumos,

de todas as piras...

Nas iras dos mares

Que beberam sangue

Todas as iras...

Na ânsia enlutada de todos os lares

       Vazios de esperança

Todas as ânsias

De todos os lares...

Nos sexos sangrentos das virgens violadas

Os farrapos

a sangrar

De todos os sonhos que homens sonharam

E homens violaram...

Em todas as dores dos vivos da terra

       todas as dores dos mortos da guerra...

E os rumos perdidos

e os corpos ardidos,

e as iras inúteis,

e as ânsias caladas,

E os sonhos, sujos como vidas de virgens violadas

E todas as dores

de todos os mortos que a guerra matou,

e todos os lutos

de todos os vivos

que a guerra enlutou,

       Perguntam,

perguntam,

perguntam

a todos os ventos

a todos os mares

às roupas de luto de todos os lares,

Se valeu a pena...

...Os mortos perguntam...

Mas os ventos trocam-se,

o mar não serena

as viúvas continuam a chorar,

e os mortos não páram de perguntar

se valeu a pena...

...Mas a esperança é longa

e bela de agarrar no fundo dos martírios...

Os mortos perguntam,

os mortos protestam...

...Irmãos, os braços são magros,

mas longos,

Longos da ânsia de querer...

...A pergunta é grande e a força é pequena,

mas nós só podemos, Irmãos, responder,

Se valeu a pena...

 

 

António Neto

 

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