24
Out 17

CREPÚSCULO

Nas horas paradas, indecisas

em que os olhos olham

a mesma cor no mundo

e, um ténue claridade se suspende

no céu, entre o Sol e as estrelas...

no compasso de espera,

ainda dia e não sei se noite,

é que acorda o nosso coração.

 

E tange

a mesma canção amarga,

que vem das árvores,

dos pássaros, da gente

e onde a síncope da noite

colhe um a um todos os gestos.

 

Deixou de brilhar a água

translúcida do lago.

A árvore sustém na copa de sombra

os ramos que apenas sabem que vacilam.

Os pássaros são pios

gravados na memória

e em redor.

 

Percebem-se ainda os passos

da mulher que desce a rua.

O resto, é um traço vago

desenhado em reflexos baços

na penumbra.

 

Tudo se retrai e assusta

como num princípio de Vida.

 

Somos crianças e vamos

levadas por um destino comum

de sombras informes.

Mistério que somos

de nada e além

em agigantadas perspectivas de Morte

confundindo-se no mármore frio

de místicos temores...

 

...E a Vida continua.

Serena se levanta

do fundo da memória

nos ramos que se agitam,

nos pássaros que voam.

E balbucia e traça e canta

a mensagem futura

para embalar o dia que vem

na aurora distante.

 

Alexandre Dáskalos, Poesia (1961)

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09
Out 16

IN MEMORIAM

(F.G.L.)

 

Noite aberta.

A lua

tropeça nos juncos.

Que procura a lua?

 raiz do sangue?

Um rio onde durma?

A voz delirando

no olival, exangue?

Sonâmbulo,

que procura a lua?

O rosto de cal

que no rio flutua?

 

Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas

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20
Set 16

SÉTIMO POEMA DO PESCADOR

Como estrela cadente

como pedra rolando

na corrente

como lua caindo por detrás das dunas

como revérbero nas águas como reflexo

como um foco na noite

como um cigarro uma lanterna um astro

como escamas luzindo no canal

como o resto de um rasto

como um sinal: mada mais do que um sinal

uma luz a acender e a apagar.

Ou eu

a pescar.

 

Lisboa, 26.12.96

 

Manuel Alegre, Senhora das Tempestades (1998)

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08
Mar 16

NOCTURNO

Noite,

noite velha

nos caminhos.

A lua no alto

fingindo-se cega.

Estrelas. Algumas

caíram ao rio.

As rãs

e as águas

estremecem de frio.

 

Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas

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30
Out 14

FUI À BEIRA DO MAR

Fui à beira do mar

Ver o que lá havia

Ouvi alguém cantar

Que ao longe me dizia

 

Ó cantador alrgre

Que é da tua alegria

Tens tanto para andar

E a noite está tão fria

 

Desde então a arfar

No meu peito a Alegria

Ouço alguém a bradar

Aproveita que é dia

 

Detei-me a descansar

Enquanto amanhecia

Entre o céu e o mar

Uma proa rompia

 

Desde então a bater

No meu peito em segredo

Sinto uma voz dizer

Teima, teima sem medo

 

José Afonso

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17
Set 14

NO TEMPLO DA MONTANHA

Noite no templo

          do alto da montanha.

Posso levantar a mão,

          acariciar as estrelas,

mas não ouso falar

          em voz alta.

Receio assustar

          os habitantes do céu.

 

Poemas de Li Bai

(versão de António Graça de Abreu)

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11
Jul 14

CANÇÃO SAUDOSA

A Saudade vem bater,

Vem bater à minha porta,

Quando o luar é de lágrimas

E a terra parece morta.

 

E a saudade bate, bate,

Com tal carinho e brandura,

Que nem a aurora batendo

À porta da noite escura!

 

Mas eu ouço-te, Saudade...

E o silêncio é tão profundo!

Ouço vozes, choros de alma,

Que ninguém ouve, no mundo!

 

Misteriosas imagens

Passam, por mim, a falar...

Bem entendo o que elas dizem,

Bem o quisera contar!

 

Mas -- que tragédia! -- emudeço.

Caio, de mim, sobre o nada!

Sou a minha própria sombra

Não sei onde projectada!

 

E entra a Saudade... Fiquei

Como assombrado e sem voz!

Sinto-a melhor, que senti-la

É vê-la, dentro de nós.

 

Vinha com ela a tristeza

Que a tarde espalha no ar...

Vinha cercada das sombras

Que andam, na terra, ao luar.

 

E vinha a sombra dos Ermos,

Com os olhos rasos de água...

E os segredos que a noitinha

Vem dizer à nossa mágoa.

 

Vinha a sombra do Marão

Sob a lua em várias fases;

E, no seu rosto de bronze,

Trazia um véu de lilases.

 

Vinha a alma do Desejo,

Toda a arder... Em volta dela,

Giram mundos e fantasmas,

Como em volta duma estrela.

 

Tudo o que é sonho em vigília

No sono da Criação;

E, entre falsas aparências,

É divina Aparição;

 

Tudo vem com a Saudade,

De noite, bater-me à porta,

Quando o luar é de lágrimas

E a terra parece morta...

 

Teixeira de Pascoais,

Terra Proibida / Antologia Poética

(edição de Ilídio Sardoeira)

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13
Jun 14

CANÇÃO LUARENTA

Vem do Marão, alta serra,

O luar da minha terra.

 

Ora vem a lua nova,

Que é um perfil

De donzela falecida...

Nas claras noites de Abril,

Em névoa de alma surgida,

Anda a errar

E a suspirar,

Em volta da sua cova...

 

Ora vem a Lua cheia...

Rosto enorme

E luminoso,

Num sorriso misterioso,

Por sobre a aldeia

Que dorme...

 

Vem do Marão, alta serra,

O luar da minha terra.

 

Teixeira de Pascoais,

Terra Proibida (1899) / Antologia Poética

(edição de Ilídio Sardoeira, 1977)

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03
Abr 14

"Se voltares o rosto"

Se voltares o rosto

(devagar)

alumias as folhas nuas

da noite.

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da Tinta

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10
Mar 14

TARDE DE INVERNO

Sobre o planalto adormecido

Num frio leito de inverno,

Agasalhado de brumas,

Um Sol terno,

Distraído...

 

De longe, a montanha sombria

Exala uma aragem fria.

 

Cheira a serra,

A terra,

Morta...

 

Mas com seu odor mais forte,

Ao apelo do vento norte

Responde

A minha melancolia...

 

 

Numa colina humilhada

De chuva, de ventanias,

Crucificado num céu dorido,

Surge um pastor como um vencido.

        Em fila, atrás,

Vem o rebanho humílimo balindo;

        Traz nos olhos a paz,

        A paz grave da serra;

E entre os dorsos compactos, de lã fina,

Paira a sombra primeira aventurosa,

O alvoroço da noite misteriosa,

        O pranto da neblina!...

 

Fausto José

presença #18 (1929)

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