07
Jun 13

SONETO XXIII

De esquivo amor cristal translúcido perdura,

que, em se mudando, é sempre a mesma a cousa amada.

Com argila de luz eu a moldei criatura,

fazendo-me a seguir, na forma por mim criada.

O mundo, ele me dá de comer -- e devora-me.

Piso-o pisando a morte, e por mais que o reinvente,

o mundo é sempre o mesmo... Esta a razão, senhora,

de em minha voz alguém se rir tràgicamente.

Vezes e vezes junto a ilusórios portões

eu clamei, mas se alguém respondia de dentro,

a vida me barrava a entrada em seus salões.

A vida é sempre a mesma -- e a morte rói-lhe o centro.

      Neste árido jardim a minha sede é tanta,

      que sempre há-de romper-se a grade da garganta.

 

Afonso Félix de Sousa,

in José Valle de Figueiredo,Antologia da Poesia Brasileira

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20
Jan 11

SONETOS DE OLINDA - IV

Mar de palpitações onde navego
desde que a meu cismar se dera um dia
e seus fardos de azul e de poesia
pesam na voz que a meus silêncios nego

por tê-la dado a um pássaro e por cego
não ter visto que o pássaro morria
sem que antes lhe gravasse a melodia
nesta concha interior que em mim carrego

e enche-me o coração de igual tumulto
ao desse esbravejar de um deus sepulto
a erguer-se em ondas e a despedaçar-se

para mais belo erguer-se novamente
como alguém que pudesse a um sonho ardente
liberto se sentir no próprio cárcere.

Afonso Félix de Sousa
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