08
Mai 14

INCONSTÂNCIA

A Aquilino Ribeiro


Tenho, às vezes, vontade de deixar-te.
E tenho, às vezes, medo de perder-te.
Não sei, às vezes, se hei-de abandonar-te,
Não sei, às vezes, se hei-de mais prender-te.

Por mais que queira, às vezes, esquecer-te,
Por mais que entenda, às vezes, ignorar-te,
Sinto o desejo enorme só de ter-te
Junto de mim na ânsia de abraçar-te.

Por mais que feche os olhos p'ra não ver-te
Ainda te encontro mais por toda a parte,
Tenha embora vontade de esconder-te.

Vivo nesta tortura de buscar-te,
Nesta inconstância atroz de não querer-te,
-- Meu fugidio sonho da minha Arte.

 

Alexandre de Córdova,

Primavera Voluptuosa

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21
Mar 12

PLUS ULTRA

Ao Dr. José Miranda

 

Pelas solitárias quebradas dos montes

Erram indistintas vozes naturais.

Balidos de corças, murmúrios de fontes,

Perdidas cantigas d'amor dos zagais.

 

E mais para além dos vastos horizontes,

E inda p'ra além doutros horizontes mais,

Há sonhos desfeitos, pensativas frontes,

Loucos corações em pecados mortais.

 

Para além de nós e do que em nós existe

Há manhãs de sol, noites de luar triste,

Destinos perdidos em convulsões e ânsias.

 

Num só horizonte a vida não se cinge,

Pois outros mais há que a vida não atinge,

E muito p'ra além de todas as Distâncias.

 

Alexandre de Córdova

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