01
Fev 11

SONÊTO DO FACHO IMÓVEL

Queimei as mãos no sol de um casario
Que nem pudera revelar mais puro.
Alto, saudoso, inatingido muro,
Onde com o céu rolei, num calafrio.

Brasa de estrêla, crepitar macio
De facho imóvel no silêncio escuro:
Sonho remoto vindo de um futuro
Que muito mal nas mãos desfaço e crio.

Queimei-as na insofrida claridade
Que desnudava as únicas janelas
Abertas sôbre o beco friorento.

Uma aflição de ausente, uma saudade
De azul perdido e flôres amarelas,
Restos de morte, patamar cinzento...

Alphonsus de Guimaraens Filho
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27
Jan 11

POESIA E ORIGEM

O pólen de ouro que arde no recesso
das corolas, no segredo dos pistilos;
a visão musical de outros tranqüilos
céus onde o amor esteve (ou está) disperso;

a secreta palpitação de uma beleza
mais casta, de uma luz que se anuncia,
trazem-me a sensação do próprio dia,
numa contemplação que é mais certeza.

Certeza? antes, o supremo encantamento
de quem renasce com as manhãs, em luminosa
plenitude, e as vê morrer, frágeis, ao vento.

A poesia é o dia reinventado.
E nós, que tanto sonhamos ao criá-la,
não nos lembramos mais de haver sonhado.

Alphonsus de Guimaraens Filho
publicado por RAA às 17:46 | comentar | ver comentários (2) | favorito