13
Set 10

...

Levanto-me e vou à janela.
Gotículas de água agarradas aos vidros.
Em baixo
sem o calor das folhas ou a alegria das flores
as árvores tiritam de frio.

As árvores, digo comigo?
Como as árvores?

Fico de repente espantado
com o facto de existirem árvores
mesmo que sejam árvores nuas
árvores pobres e municipais.
Nunca da sua existência me apercebera.
Nunca me dera conta que existissem.
Não fazia a mais pequena ideia que existissem árvores.
É espantoso saber que existem árvores
e mais espantoso ainda
que árvores aqui existam.
Aqui nestas traseiras
onde nunca nada houve.
E é espantoso que eu possa vê-las
como agora as estou a ver.

E ver que as vejo
deve ser ainda mais que tocá-las.
Vincam-se lívidas na névoa que clareia.

Erguem-se os braços nus e suados no ar.
Existem, Deus meu.
E com elas
passam a existir todos os quintais das traseiras.
E com os quintais
passam ainda a existir
os torreões brancos da Igreja de S. Vicente
e por detrás o Tejo.

Mas como o Tejo?
Como o Tejo
se nunca o vi em criança
que é a idade justa para haver Tejo?

E para cúmulo
ao fundo
tudo isto coroando em excelência
a linha solene e altiva
sem nada perder em doce
da Arrábida.

António Cândido Franco
publicado por RAA às 14:23 | comentar | favorito
06
Ago 10

...

Às árvores regresso.
E como não
se eu nunca vi árvores?
Árvores, pois.
Árvores baixas e altas
de folha persistente ou não.
Nespereiras.
Uma oliveira gigantesca.
Uma araucária.
Romãzeiras talvez.
Detrás delas
rente ao muro
uma moita rasteira e hirsuta.
Talvez buxo.
Saltita lá um pássaro
pequeno e grisalho.

Pássaros?
Depois das árvores
só os pássaros me faltavam.
Os pássaros que eu também nunca vi
nem fazia ideia que existissem.
E muito menos aqui.
Este ao de leve se espaneja
com arrepios felizes.
Por duas vezes canta
antes de levantar voo.
Passa rente a mim.
Bate as asas
e no ar desaparece
deixando atrás de si um rasto de luz.
O eco do seu canto
eterno me parece.

[Comprovo agora
enquanto passo isto a limpo
noutra casa e noutra janela
a verdade desse pressentimento.
O pássaro de lá canta aqui, aqui, aqui
sem precisar de estar.]

António Cândido Franco
publicado por RAA às 23:00 | comentar | favorito
29
Out 08

...

A humidade escorre pelas paredes.
A tinta retorce-se.
Grelado nas paredes
diz a vizinha.
Certo.

Em cima da mesa
os jornais estão cheios de cotão.
Deixá-los estar.
Também lá dentro
no quarto
a minha mãe se deixa estar.
A tudo isto pertence.
É preciso não a incomodar.
Tem o coração cansado
os olhos com pó.
Caruncho, diz ela.
É verdade.
Que noite pavorosa
por esse corpo vai.

Mas sem essa noite
que seria do meu dia?
Breu?
Nada?
Horror?
Uma mãe
mesmo depois de morta
dá-nos o seio.

Que é a Via Láctea
senão o leite da nossa eterna inocência?

António Cândido Franco
publicado por RAA às 23:41 | comentar | ver comentários (6) | favorito