02
Out 18

ERÓTICA RÍTMICA

São rubras as rochas

Os rostos    as faces

São dúbios os gestos

Gravados nas rochas

No voar das aves

 

São raras tão raras

As aves nos rostos

E lentos enleios

Percorrem os dedos

Nas casas nas casas

Segredos segredos

 

São breves tão breves

Os olhos os corpos

Pesados escopos

e tantos tão poucos

(estilhaços e danos)

 

António Carlos Cortez, A Dor Concreta (2016) / Ritos de Passagem (1999)

publicado por RAA às 13:42 | comentar | favorito
05
Abr 17

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«O que os poemas querem dizer, só eles sabem o que querem dizer.»

António Carlos Cortez, «Herberto Helder -- O nome mais obscuro»
JL-Jornal de Letras, Arte e Ideias,
Lisboa, 29 de Maio de 2013
publicado por RAA às 18:45 | comentar | favorito
26
Ago 10

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acreditar que a pedra é de pedra na superfície rugosa
feita de cinza e xisto de níquel e de prata
e que um astro não se apunhala nem mesmo em caso
de saberes que o níquel se sobrepõe ao fogo
acreditar que depois há uma soma das sombras
que ainda vamos a tempo de saber que a cinza é o xisto
que a geografia das mão é um húmus de singular medida
acreditar nessa mistura de animais e pedras
que de repente se evola o negrume de um barco
para que sempre se provoque a combustão de águas
e nunca permanecer num luar que seja de lodo
e nunca assegurar um branco que cegue e que perfure
acreditar na luz e depois dela na mesma luz secreta
um poema basta para acreditar numa pedra incerta

António Carlos Cortez
publicado por RAA às 14:36 | comentar | favorito
26
Set 09

...

é quando a noite é um animal ferido
que o poema salva quem o lê abandonado
quando se pressente a voz enlouquecida
de alguém que nos olhou e descobriu
é quando a noite rouba a luz do dia
para construir suas altas fragas de silêncio
e um galope de lábios na sua verdura
nos invade ou nos recolhe em suas crinas
é quando a linha de sombra é o azul da chama
ainda antes de ser contra a pureza nua
o edifício das palavras com dois gumes
é quando sabemos que nos encontramos
num café numa esquina que então escutamos
a pedra angular da nossa vida o poema escrito

António Carlos Cortez
publicado por RAA às 00:50 | comentar | favorito