30
Out 16

BALADA DO REDONDO

Tudo o que à noite é mais claro

é escuro durante o dia

portais em que nem reparo

postigos de talhe raro

e o segredo o desamparo

a que se chama poesia.

 

E quando à noite me deito

apago a luz para ver

sobre a água do meu peito

afilado rosto estreito

rendas de lençol no leito

e o teu corpo de mulher.

 

E assim habito contigo

à luz da luz apagada

e sem palavras te digo

juras de amor inimigo

carícias a que não ligo

suspiros de namorada.

 

Árvores que o dia consome

casinhas de telha vã

ó ruas que a sombra come

ninguém conhece o meu nome

ninguém mata a minha fome

e logo à noite é manhã.

 

António Lobo Antunes,

Letrinhas de Cantigas (2002)

publicado por RAA às 02:49 | comentar | favorito
08
Mai 11

Letrinhas de Cantigas

autor: António Lobo Antunes (Lisboa, 1.IX.1942)
título: Letrinhas de Cantigas
edição: Publicações Dom Quixote
local: Lisboa
ano: 2002
págs.: 55
dimensões: 17,511,1x0,4 cm. (brochado)
capa: Atelier de Henrique Cayatte com Rita Múrias
impressão: Norprint
obs.: «Esta edição (inédita e irrepetível) comemorativa dos 20 anos de trabalho do António Lobo Antunes com as Publicações Dom Quixote, não pode ser vendida, destinando-se exclusivamente a oferta aos compradores de outras obras do autor» (da ficha).
publicado por RAA às 03:32 | comentar | favorito
19
Dez 10

FADO DO BICHINHO DA TERRA

És gesto mas não de gente
és boca mas não de beijo
quando te olho de frente
e encontro o que não vejo.

Estes lábios esta voz
esta celeste frescura
esta fome que há em nós
e dentro de nós procura

como os bichinhos da terra
as raízes da figueira
como a noite que se cerra
em torno da terra inteira.

Como a luz de lado a lado
como a espada até ao fundo
como se eu fosse culpado
da miséria que há no mundo.

António Lobo Antunes
publicado por RAA às 23:33 | comentar | favorito
12
Ago 10

CRIOULO NÃO TEM PATRÃO

(coladera)

Ao chegar português disse
trabalha na serração
eu ri na cara do branco
peguei na minha viola
crioulo não tem patrão.

Ao chegar patrício disse
trabalha na construção
eu ri na cara do negro
saí numa coladera
crioulo não tem patrão.

Eles tem casa eu tenho a rua
eles tem sobrado e eu chão
eles são ricos eu sou pobre
eles são escravos eu sou livre
crioulo não tem patrão.

António Lobo Antunes
publicado por RAA às 18:06 | comentar | favorito