02
Ago 12

OS MORTOS PERGUNTAM

Nos rumos perdidos dos ventos trocados

       Todos os rumos,

Nos fumos das piras dos mortos cremados

Todos os fumos,

de todas as piras...

Nas iras dos mares

Que beberam sangue

Todas as iras...

Na ânsia enlutada de todos os lares

       Vazios de esperança

Todas as ânsias

De todos os lares...

Nos sexos sangrentos das virgens violadas

Os farrapos

a sangrar

De todos os sonhos que homens sonharam

E homens violaram...

Em todas as dores dos vivos da terra

       todas as dores dos mortos da guerra...

E os rumos perdidos

e os corpos ardidos,

e as iras inúteis,

e as ânsias caladas,

E os sonhos, sujos como vidas de virgens violadas

E todas as dores

de todos os mortos que a guerra matou,

e todos os lutos

de todos os vivos

que a guerra enlutou,

       Perguntam,

perguntam,

perguntam

a todos os ventos

a todos os mares

às roupas de luto de todos os lares,

Se valeu a pena...

...Os mortos perguntam...

Mas os ventos trocam-se,

o mar não serena

as viúvas continuam a chorar,

e os mortos não páram de perguntar

se valeu a pena...

...Mas a esperança é longa

e bela de agarrar no fundo dos martírios...

Os mortos perguntam,

os mortos protestam...

...Irmãos, os braços são magros,

mas longos,

Longos da ânsia de querer...

...A pergunta é grande e a força é pequena,

mas nós só podemos, Irmãos, responder,

Se valeu a pena...

 

 

António Neto

 

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18
Jun 12

ARTE POÉTICA

Versos

Os que se escrevem com o pulso

Quando nos cortam a mão

...E só então...

Os que se datam com não-datas de calendário

Mas datas de mortes ou de partos;

O tempo que leva uma criança a nascer

Um cadáver a apodrecer

Não são tempos que admitam rótulo

De anos e mês e hora

Poesia

Só a da agonia

Que mata ou cria

Poemas

Só este

E os que escrevi e não escrevi quando morreste

 

 

António Neto 

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17
Abr 12

ARTE POÉTICA

 Versos

Os que se escrevem com o pulso

Quando nos cortam a mão

...E só então...

Os que se datam com não-datas de calendário

Mas datas de mortes ou de partos;

O tempo que leva uma criança a nascer

Um cadáver a apodrecer

Não são tempos que admitam rótulo

De anos e mês e hora

Poesia

Só a da agonia

Que mata ou cria

Poemas

Só este

E os que escrevi e não escrevi quando morreste

 

António Neto

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15
Dez 10

PROGRAMA

Para Miguel Torga

Seja a poesia
O que nós quisermos que seja...
...Não venha ao sabor do dia
Porque os dias são instantes no caminho

--: Não cante a voz
Mais alto que nós!

António Neto
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