04
Jul 11

TERRA

Nha Chica, conte-me
aquela história
de meus irmãos
hoje perdidos
no mundo grande...

Nha Chica, eu sei:
anos de seca,
gentes morrendo,
casas sem telhas,
de porta em porta
olhos crescendo
barriga inchando,
um dia tombam
de olhos vidrados
por qualquer canto...

Lisboa, América,
Dakar ou Rio:
-- dentro de nós
surge esta ideia
partir! partir!

Resignados,
os que ficaram
ficam esperando
que as nuvens toldem
que a chuva caia
que o chão fecunde
cobrindo os montes
cobrindo as várzeas...

Ah, anos fartos!
Milho, feijão,
pilão cohindo,
fumo no ar,
riso nos lábios,
grog, cigarros,
batuques, bailes
e casamentos...

Olho estes campos,
olho estes mares,
e sinto a Vida
prendida à terra,
feita de sonhos
que um dia esvaem-se
-- mas surgem sempre...

António Nunes
publicado por RAA às 11:41 | comentar | favorito
15
Jun 11

CAMINHO GRANDE

Fidjinha,
não fiques nunca, à noite, no caminho grande!

Que há correntes que arrastam
cavalos que relincham
macacos que são gente
e capòtónas que surgem por detrás dos barrancos...

E não andes por atalhos...

Que António Pama pode te assaltar
e deixar-te no chão, como uma pomba ferida...

António Nunes
publicado por RAA às 15:06 | comentar | favorito
31
Ago 10

MORNA

As mesmas casas... as mesmas ruas...
o mesmo largo...
Só os rostos dos homens é que não são os mesmos
e, ébrios, os braços pendem, os homens tombam...

Som de violino escapando-se da casa térrea.
Cheiro a petróleo e a fumo.
Quêrèna treme os dedos sobre as cordas,
olhos vidrados, berra por mais gróg!

Titina sente-se frágil sob os braços de Armando.

A Morna traz ao corpo a lassidão e o sonho,
como a lua pondo sombras em coisas impossíveis...

António Nunes
publicado por RAA às 12:18 | comentar | favorito