01
Dez 14

CANTIGAS PARA OS TRABALHADORES DOS CAMPOS

Sou cavador, cavo a terra

Donde nasce a flor e o grão.

Dou aos outros a fartura

E em casa não tenho pão.

 

Hoje planto árvor's e vinha,

Lavro a terra, rego a horta,

E amanhã, em sendo velho,

Pedirei de porta em porta.

 

O sol a todos aquece,

Não nega a luz a ninguém,

Ama os bons e ama os maus

E assim foi Jesus também.

 

A árvore, quanto mais fruto,

Mais baixa os ramos p'ra o chão.

O homem, quanto mais rico,

Mais ergue a sua ambição.

 

A vida do pobre é isto:

-- Trabalhar enquanto moço,

E em velho andar às esmolas

Como o cão que busca um osso.

 

Morre um rico, dobram sinos!

Morre um pobre, não há dobres!

Que Deus é esse dos padres

Que não faz caso dos pobres?

 

Se pão não tenho, e os meus filhos

Me pedem pão a chorar,

Dou-lhes beijos, coitadinhos!

Que mais não lhes posso dar...

 

Sinto no mundo um rumor

Que anuncia um dia novo,

Andam profetas na terra

Abrindo os braços ao povo!

 

O sol nasceu cor de sangue

E a lua da mesma cor.

Gritam as bocas: Mais pão!

E os corações: Mais amor!

 

Bernardo de Passos,

Refúgio / Líricas Portuguesas. 2.ª Série

 (edição de Cabral do Nascimento)

 

 

publicado por RAA às 13:37 | comentar | favorito
30
Set 13

PÁTRIA

Eu amo o meu País, embora sobre a Terra

Em cada homem veja apenas um irmão.

Nós somos como a esteva ou a urze da serra

Que só floresce bem no seu dorido chão...

 

Na Pátria, o coração é uma árvore. Cresce,

Prendendo-lhe a raiz e em flor sorrindo ao céu!

Quanto mais se ergue em flor, mais ele à raiz desce,

-- Mais ele beija e abraça o chão onde nasceu...

 

Bernardo de Passos

Portugal na Cruz / Líricas Portuguesas - 2.ª Série

edição de Cabral do Nascimento

publicado por RAA às 19:23 | comentar | favorito
06
Nov 10

"AVE-MARIAS" NA MINHA ALDEIA

 "Tudo quanto há neste vale é cheio duma lembrança triste..."
                                                                                                                                                                                                                                                                 Bernardim Ribeiro

Da torre, tange o sino brandamente
"Ave-Marias", pela branca aldeia,
Enquanto vem dum lado, a lua cheia,
E doutro, se despende o sol-poente...

Pelos freixos do "Pego", em minha frente,
Cansado já, um rouxinol gorgeia.
Vagam murmúrios d'água que serpeia,
-- Fontes deixando o vale, saudosamente...

E alguém vai cantando, estrada fora,
Um fado triste como a voz do mar
E o vago soluçar das ventanias...

Ó meu Amor! quisera, nesta hora,
Reclinar-me no teu seio, p'ra chorar,
Enquanto o sino tange "Ave-Marias"...

Bernardo de Passos
publicado por RAA às 20:59 | comentar | favorito