21
Mai 12

HOMO

Penso. Verbo, sou uma voz sonora...

Abalo os mundos, pelo céu alastro...

Asa e fogo. Crepito e subo. Um astro

A arder, errante, pela noite fora.

 

Transcendo o infinito. Zoroastro,

Jesus ou Buda a procurar a aurora

Do dia eterno, enquanto a dor clamora:

-- «Deus passou por aqui: segue-lhe o rastro...»

 

O soluço imortal! O grito amargo

Vare embora os abismos, não me assombra

E aremesso-me além! mais alto! e ao largo!

 

E Deus? Como atingi-lo? Dilacero

A sombra onde se oculta e -- ó desespero,

Ó voo inútil -- não se acaba a sombra...

 

Cândido Guerreiro

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26
Mar 12

INTANGÍVEL

No voo em que me enlevo a procurar-te,

Mergulho no infinito, e até parece

Que um murmúrio de cântico e de prece

Me embala e vai comigo a toda a parte...

 

E toda a sombra má desaparece,

E toda a luz é para iluminar-te,

A música de Deus para cantar-te,

Por ti se enflora a terra e o sol aquece...

 

Por ti, que enches o mundo e não te vejo,

Onda incorpórea e hálito disperso,

Nuvem de fogo e sonho de desejo!

 

Por ti, que diluída no universo,

És o dulçor que encontro em cada beijo,

A harmonia que busco em cada verso!...

 

Cândido Guerreiro

publicado por RAA às 14:37 | comentar | favorito
02
Nov 10

FAROL ETERNO

Decorreram os anos. Pouco a pouco,
O vendaval, à solta, por vingança,
Quebra os vitrais e pela igreja avança,
E rompe em uivo prolongado e rouco...

E foge, e torna, e, com a chuva, louco,
Em desvairado sacrilégio, dança,
E abate claustros e ao abismo os lança,
E tudo alui, da abóbada ao cabouco...

Tudo caíu... Mas uma claridade,
Azul, fugaz, em noites muito escuras,
Ondula e sobe e, entre os escombros, erra...

-- Oh! a sobrevivência da piedade! --
São fogos fátuos, são as sepulturas
Ainda agora a alumiar, da terra...

Cândido Guerreiro
publicado por RAA às 10:47 | comentar | favorito
14
Set 10

INCÊNDIO

Daqui, desta falésia cor de lava,
Dum amarelo rútilo e sangrento,
Outrora debruçava-se um convento
Sobre a maré tumultuosa e brava...

E, à noite, quando no clamor do vento,
Ao largo, o temporal se anunciava,
E a voz das águas, soluçante e cava,
Punha um trovão nas furnas, agoirento,

Logo, piedosamente, cada monge
Suspendia uma lâmpada à janela,
E tangia a sineta para o coro...

E, no mar alto, o navegante, ao longe,
Via um farol luzir em cada cela,
E cada rocha a arder, em sangue e ouro...

Cândido Guerreiro
publicado por RAA às 10:39 | comentar | favorito
02
Set 10

SONETO

Porque nasci ao pé de quatro montes,
Por onde as águas passam a cantar
As canções dos moinhos e das fontes,
Ensinaram-me as águas a falar...

Eu sei a vossa língua, água das fontes...
Podeis falar comigo, águas do mar...
E ouço, à tarde, os longínquos horizontes
Chorar uma saudade singular.

E, porque entendo bem aquelas mágoas
E compreendo os íntimos segredos
Da voz do mar ou do rochedo mudo,

Sinto-me irmão da luz, do ar, das águas,
Sinto-me irmão dos íngremes penedos,
E sinto que sou Deus, pois Deus é tudo...

Cândido Guerreiro
publicado por RAA às 12:26 | comentar | favorito