28
Jun 12

A ROSA IRREVELADA

Correi o mundo e procurai palavras novas para um poema.

Dos oceanos trazei nomes de peixes e remotas ilhas,

tranças de virgens, seios afogados,

mas

antes de tudo palavras para um poema.

 

Caminhai nas trevas em busca de uma rosa.

Colhei nos cardos a flor menosprezada.

Buscai no mar os líquenes, as esponjas,

trazei convosco pérolas,

peixes negros e plantas submarinas.

 

Trazei a náufraga de olhos devorados

por gaivotas. A náufraga de seios como luas

entre ciprestes de algas. A náufraga

de coxas como praias

onde o desejo espuma e desfalece.

 

Não procureis anelos e ternura

nem um pássaro de canto engaiolado.

Quero-vos noite escura, corpo escuro

de mulher em silêncio, rosa inviolável.

 

Trazei da noite palavras para um poema.

A irrevelada morte para um poema.

 

Domingos Carvalho da Silva

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03
Mai 12

ANTECIPAÇÃO

As patas da noite esmagam

os lírios débeis da aurora.

Por invisíveis estradas

negros cavalos galopam.

Ao longe brilham dois lagos

da cor triste de teus olhos.

Dunas de angústia se formam

nas praias frias da morte.

Agito os braços. É inútil

tentar opor à corrente

de areia e sangue, que avança,

os versos frágeis de um poema.

É inútil falar de rosas

e frutos novos e agrestes

flores, quando no peito,

cardos apenas florescem.

A aurora é doce. E anuncia

um dia calmo, entre o canto

dos pássaros e a alegria

da primavera nos campos.

Amada, não mais veremos

o dia que se levanta.

Negros cavalos galopam,

já é menor a distância...

Serão altas como nuvens,

no céu claro da manhã,

as rosas que hão-de nascer

de minha carne e teu sangue.

 

Domingos Carvalho da Silva

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