17
Jan 11

JÁ POETA

Já poeta não sou se a voz eu calo
e nesse estado estou, que é não estar.
Já poeta não sou se a voz eu ergo,
para abrir outra porta, além no espelho.
Já poeta não sou quando estou cego
e adio essas linhas, marcadas a negro.
Já poeta não sou se o tempo perco,
no novelo enredado, no vício do prego.

Por isso escrevo, entre sangue e ouro,
rasgando as cortinas feitas pelo medo.
Por isso assim escrevo, escravo das palavras,
deixando a corrente inundar o Outro.

Toda a arte poética não deixa de ser
fogo de artifício -- para o Outro ver.

Eduardo Guerra Carneiro
publicado por RAA às 22:33 | comentar | favorito
14
Jan 11

...

Lixo: aparas de lápis, serradura, papéis
com borras de café, sangue num pano,
jornais amarelecidos, cinzas com cigarros.
E juntar a este lixo as palavras gastas,
os livros queimados, o gosto agora azedo
da bebida e o retrato da outra, preciosa
pedra de sempre mas agora: lixo.
E saber que revolver este lixo é estar
no caldeirão a misturar ouro e vulcões.
E amar este lixo, mesmo no ódio. Voltar
então às palavras mais simples. Deixar
o vento levantar a bruma da poeira
dos cavalos. Entrar nas águas
debaixo da varanda -- olhar o mar.

Eduardo Guerra Carneiro
publicado por RAA às 23:13 | comentar | favorito
08
Jan 11

NEVE

Arde a neve na cara e nas mãos e à serra
trepo para então me confundir. Queima
a intensidade do gelo. Ferem e cortam
os cristais da neve. Quando gelam
ribeiras e os tanques ficam pedra,
os canos rebentam certas vezes: explosão
de gelo; incêndios de neve.
Arde a neve na saudade de a não ter
de o não sentir. De novo à neve
volto e me perco nos cerros,
quando a claridade cega
de tanta brancura. Impossível
serenidade: por ti espero.

Eduardo Guerra Carneiro
publicado por RAA às 22:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
31
Ago 10

CONTRA A CORRENTE

Contra a corrente subimos os rios
à procura do lugar onde os sonhos
nascem. Contra a corrente rompemos
o véu e do anel de fogo já saímos.
Contra a corrente estamos sempre
quando os rios se formam em anéis de fogo
e véus de bruma surgem. Contra
a corrente chegamos a lugares onde o sonho
sobe. Contra a corrente,
outra vez, ainda, tentamos a sorte:
anular alguns círculos na água,
corpo-a-corpo com a morte,
p'ra desfazer o feitiço da serpente.

Eduardo Guerra Carneiro
publicado por RAA às 23:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito