16
Ago 14

TESTAMENTO

para ti minha mãe pudica mulher do povo

percal de energia em nossa casa

mais que mãe companheira

mais que companheira anjo da guarda

teço na lira uma oração de linho

tão puro e branco como o teu amor

 

e para ti meu pai que andaste por verdes pinheirais

e deles me legaste o puro ar

a quietude da ramagem

a mansa caruma

e o tronco casa de pobre lareira de inverno

componho os sons duma canção com sabor de lenha

que alguém um dia nos campos cantará

 

para vós irmãos meus camaradas

que comigo procuram uma estrela

sem nunca a encontrar

mas sem desistências traições ou a palavra medo

dentro dos corações ainda a esperam

e comigo continuam

ofereço meu hálito quando jovem

beijava os pés dos camponeses

únicos santos que venero

 

e para os inimigos ou simplesmente aqueles

que duvidaram da foice que enterrei nesta seara

desde o bago à esperança que inteira permanece

lego o retrato alentejano de meus filhos

que são dois:

o josé

e a ana.

 

Eduardo Olímpio

Cadernos Despertar #1 (1982)

 

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13
Jun 14

TRABALHO

é preciso escrever o poema. formar a

palavra. amá-la.

escrever por exemplo o homem e

pôr os testículos à

mostra para confirmação do

substantivo.

 

é preciso também escrever amor a

tinta da china   preta de

preferência para

maior duração do

coito.

 

e mar. é preciso escrever mar

navio vaga como quem

semicircula uma foice como quem

desenha uma

gaivota na charneca do

mar.

 

e é preciso também escrever

medo

para que o poema tenha cãs

e a esperança cresça

prenha

no grito mais secreto das manhãs.

 

Eduardo Olímpio,

in Cadernos Despertar #1 (1982)

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