08
Dez 09

TELA

A chuva cai, miudinha,
No chão magoado, gelado:
--Bate, cai, no meu telhado,
Com pés de Anjo, leveirinha;

Feia noite se avizinha:
Aí vem o manto pesado
Que já cerca o povoado!
(E a chuva cai, sereninha...)

Descem, ao vale, as Trindades;
Vão recolhendo, às herdades,
Ovelhas inda famintas;

O vento dança, nos montes;
Clamam rios, choram fontes;
Ladram cães -- longe nas quintas...

Eduardo Salgueiro
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09
Nov 08

A UM PINHEIRO QUE VÃO CORTAR

(Ao Severo Portela)

Ó pinheirinho triste, meu irmão,
De fraguedos e chuva alimentado!
Com que mágoa te vejo recortado
No frio azul da tua solidão!

Eu bem entendo a viva inquietação
Do teu olhar em Deus mal confiado!
Bem sei que vais tombar, decapitado,
Mãos erguidas em prece de cristão!

Bem entendo a irreal melancolia
Do teu rosto engelhado, neste dia
Que a toda a volta espalha desconforto;

Mas -- ó corpinho tenro, de criança! --
Que te console, ao menos, a lembrança
Do bem que espalharás depois de morto!

Eduardo Salgueiro
publicado por RAA às 23:58 | comentar | favorito