10
Mar 14

TARDE DE INVERNO

Sobre o planalto adormecido

Num frio leito de inverno,

Agasalhado de brumas,

Um Sol terno,

Distraído...

 

De longe, a montanha sombria

Exala uma aragem fria.

 

Cheira a serra,

A terra,

Morta...

 

Mas com seu odor mais forte,

Ao apelo do vento norte

Responde

A minha melancolia...

 

 

Numa colina humilhada

De chuva, de ventanias,

Crucificado num céu dorido,

Surge um pastor como um vencido.

        Em fila, atrás,

Vem o rebanho humílimo balindo;

        Traz nos olhos a paz,

        A paz grave da serra;

E entre os dorsos compactos, de lã fina,

Paira a sombra primeira aventurosa,

O alvoroço da noite misteriosa,

        O pranto da neblina!...

 

Fausto José

presença #18 (1929)

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03
Fev 13

VERSOS DE PURA SAUDADE

                           AO JOSÉ RÉGIO

 

Não terá consolação

A mágoa de ver partir,

Os que nos são mais queridos.

 

Decerto,

Nunca serão esquecidos

Todos aqueles que anadaram

Mais perto,

Que foram qause de nós,

E que em noss'alma gravaram

O jeito da sua alma,

O timbre da sua voz...

 

O mesmo sonho que os trouxe,

Na mesma onda os levou!...

 

Mas aqueles, cujos sonhos, 

Nascidos como enleados

Subiram,

À mesma luz floriram,

Duma só haste caíram

Desfolhados,

Serão mais do que lembrados!...

 

A vida como um clarão!

Todos meus pensamentos por defesa,

Resvalo desta impotência,

A algema desta certeza:

Que não tem consolação

A mágoa de os ver partir,

De lágrimas quase no olhar,

                                 Sorrindo...

                                        Partindo...

 

Fausto José

presença  #16,

Coimbra, 1928

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10
Jan 11

VISÃO

Desconheço a matéria de que és feita,
Que mão febril teu corpo modelou;
Minha alma, ao pressentir-te, insatisfeita,
Como as ondas do mar se alevantou!

Oh! feminil visão clara e perfeita
Que o meu olhar profano dissipou,
Névoa que a luz do alvorecer enfeita
E o hálito da aragem dispersou!...

Na terra, em sonhos ando a procurar-te,
Na terra, pelo céu, e em toda a parte
Para beijar o rasto de teus pés...

Mas quanto mais minha alma te procura,
Mais teu vulto se perde na fundura...
E por ti morro sem saber quem és!

Fausto José
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09
Set 10

SONETO

Nas mornas solidões, lá nas florestas virgens,
Onde sonham ao luar estáticos pauis,
As nuvens sensuais têm súbitas vertigens:
Chuvas torrenciais, relâmpagos azuis!

Langorosas d'amor vêm as noites macias,
Com seu vago torpor de aroma e claridade,
E as estrelas, no céu, mais brilhantes e frias
Ostentam a nudez da sua virgindade!

Assim no coração imenso dos poetas,
Após as vivas dores, as torturas secretas,
Que no silêncio, audaz, criou seu pensamento,

Como que a vida ganha um sentido maior,
A mais longe se espraia a onda do amor,
Mais penetrante e doce é a luz do sentimento!

Coimbra.

Fausto José
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